08 de julho de 2026
Nacional

Lula diz ter acertado ao evitar debate

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

São Paulo - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem estar certo de que tomou a decisão correta em faltar ao debate promovido anteontem pela Rede Globo. Justificou dizendo que o “baixo nível” dos adversários, que teria ficado comprovado no debate, foi a grande marca dessa campanha eleitoral. “Todo o povo assistiu (ao debate) e viu o nível que os meus adversários queriam. Eles deveriam ter aproveitado a oportunidade para falar o que pretendem fazer com o Brasil”, disse Lula, ao chegar para uma visita à fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo (SP), seu berço político.

Em uma atitude rara, o petista elogiou a imprensa, que freqüentemente é colocada como parte da “conspiração das elites” nos discursos dele. Lula relembrou eleições passadas, dizendo que poderia ter sido eleito se a mídia já adotasse procedimentos atuais. “Ninguém pode se queixar nesta campanha da cobertura da imprensa. Se eu tivesse tido metade da imprensa que eu tive agora, já teria ganho em 89, quem sabe em 94. A imprensa se democratizou demais, não importa se a gente gosta ou não gosta da cobertura”, afirmou.

No discurso realizado em seu último comício, porém, o presidente foi irônico ao se referir à imprensa, dizendo que eram “companheiros de boa índole”, “operários da comunicação” e que não sabia como agradecer as gentilezas que recebia por parte da imprensa. Quando um jornalista perguntou qual foi a marca da campanha que se encerra hoje, Lula foi direto: “O baixo nível dos adversários”.

Lula foi alvo de ataques no debate, que contou com a presença de Geraldo Alckmin (PSDB), Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT). Na versão oficial, Lula não assistiu ao debate. No entanto, viu a parte final do encontro quando chegou ao apartamento de São Bernardo.

Ataques

No debate, os candidatos e o mediador William Bonner criticaram a ausência de Lula. Foram mostradas imagens de uma cadeira vazia que tinha um letreiro com seu nome. Os ataques mais duros vieram de Heloísa, como previsto pelos estrategistas. Ela disse que o PT virou uma “organização criminosa comandada pelo presidente da República” e acusou Lula de não ter “autoridade moral” para debater e explicar os escândalos do governo. Daí sua ausência, afirmou.

Alckmin, num tom menos agressivo, disse que o mensalão foi “tramado no Planalto por meio da cúpula do PT” e citou nomes de ex-ministros envolvidos em escândalos. Cristovam que disse que perguntaria ao presidente se ele renunciaria caso aconteçam novos casos de corrupção em seu governo, afirmou que faltar ao debate era uma forma de corrupção”.

Na avaliação da cúpula da campanha de Lula, o debate em si teria pouco impacto. Nas palavras de um auxiliar direto, “a surpresa negativa da ausência” teria se diluído ao longo de um programa “frio e sem graça”. A preocupação maior era com a repercussão que a Globo, contrariada, daria ao debate.

Trauma

Em 1989, a versão com os “melhores momentos” do último debate do segundo turno exibida pelo “Jornal Nacional” foi considerada determinante para a vitória de Fernando Collor sobre Luiz Inácio Lula da Silva na disputa presidencial. Até o debate, Lula vinha crescendo nas pesquisas e ameaçava a vitória de Collor. Nas palavras de Ricardo Kotscho, então assessor de imprensa de Lula, a edição do “JN” transformou uma simples vitória de Collor em um “massacre”.

O programa mostrou 3 minutos e 34 segundos de falas de Collor e 2 minutos e 22 segundos de Lula. Em todas suas aparições, Collor atacou Lula ou o PT. Lula não atacou Collor em nenhum dos trechos. Além das imagens, o “JN” também usou uma pesquisa do instituto Vox Populi com números muito favoráveis a Collor na avaliação que os eleitores fizeram do debate. Antes, a emissora preferia usar os números do Ibope.

A exibição no “JN” de uma edição mais favorável a Collor do que a veiculada no mesmo dia no “Jornal Hoje”, mais neutra, teria contado com o aval de Roberto Marinho, dono das Organizações Globo morto em 2003, ou, dependendo da versão dos jornalistas envolvidos no caso, teria sido fruto de uma ordem sua, contrariado com a edição do “Jornal Hoje”.

A veiculação do debate gerou uma polêmica entre Marinho e o homem-forte da emissora, José Bonifácio de Oliveira, que em 17 de dezembro de 1989, dia do segundo turno, disse à reportagem, que a edição ficara “mais favorável a Collor” e que houve “erro de avaliação” do jornalismo da Globo. “Boni é o melhor especialista em televisão do Brasil, mas nunca o tive como especialista em questões eleitorais”, rebateu Marinho.