O clássico é sempre popular através dos séculos e o popular nunca chega a ser clássico porque não resiste ao tempo. É a explicação que encontro para a atualidade dos sermões do Padre Vieira, produzidos no século XVII. Em 1655 ele já se referia ao perigo de eleger mal, no Sermão do Bom Ladrão, pronunciado na Igreja da Misericórdia, de Lisboa. Dizia ele que Deus elegeu dois reis, Saul e Davi, e ambos tirou de pastores, os operários da época, para que, pela esperança dos rebanhos que guardavam, soubessem como haviam de tratar o povo. Mas, aqueles a sua volta, por ambição e cobiça, em vez de guardar e apascentar ovelhas as roubavam e comiam como lobos.
“Quem pagou o furto cometido por Adão?” - pergunta Vieira aos fiéis-ouvintes. Sabemos que a criatura voltou-se contra o criador e assim o traiu. Adão violou a Lei do Senhor. Deixou-se seduzir pela serpente, com a companheira Eva. Ambos comeram o fruto da Ciência do Bem e do Mal. Adão e Eva, como castigo, foram expulsos para leste do Éden, a periferia do Paraíso, uma espécie de Ferradura-Mirim onde todos estão condenados a viverem esquecidos do Poder Público. Millôr, que descreveu o Paraíso reclama que a serpente, misteriosamente, nunca foi punida. Mas, foi. Condenada a rastejar até o final dos séculos, se quiser engolir sapo.
O notável pregador conta que Alexandre saiu da Macedônia para derrotar os exércitos persas, envolveu todo o Mediterrâneo oriental, penetrou no Egito, atravessou o Tigre e o Eufrates, continuou numa fabulosa escalada até a Índia para depois morrer na Babilônia como “senhor do mundo”. Deixou atrás de si um rastro de destruição, mortes e saques. Quando atravessava o Mar da Eritréia, um pirata foi levado preso a sua presença e defendeu-se: “Eu, porque roubo em uma barca sou ladrão e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é: roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza”. Prega Vieira que, se o rei da Macedônia fizer o que faz o ladrão e o pirata, todos têm o mesmo lugar e merecem o mesmo nome.
“Mas, quem pagou o furto cometido por Adão?” - pergunta novamente Vieira, para ele mesmo responder. “Deus que o elegeu!” Diante da platéia surpresa, explicou: “Vestiu o corpo humano, sendo Deus, derramou o próprio sangue, foi condenado à morte entre dois ladrões. Pagou o que não furtou”. Quem elege mal também tem responsabilidade e, mesmo isento de dolo está sujeito a penar. O fato de Deus ter perdoado o bom-ladrão Dimas e prometer-lhe o Paraíso “foi para que os ladrões e os reis se salvem e impeçam furtos futuros graças ao exemplo visto no céu”.
Se fosse hoje Vieira diria que é preciso votar, mesmo correndo riscos. Mas procurar acertar e, quando errar porque o eleito o traiu e nunca foi o fiel intérprete das suas esperanças, tentar aprender com o erro. Mas há que ter o cuidado de Tucídides. Escolher para votar um “diaphanos adoratatos”, ou seja, alguém “transparentemente incorruptível”. Foi assim que Tucídides ajudou a eleger Péricles, no século V antes de Cristo, o melhor de todos os dirigentes gregos.
Infelizmente, hoje, aqui, como na Grécia antiga, nem sempre os cidadãos eram conscientes do seu dever de votar bem. Plutarco conta que os gregos votavam, certa ocasião, para decidir sobre o ostracismo de Aristides. Um eleitor analfabeto pediu ao próprio Aristides, sem saber quem ele era, para escrever “Aristides” na ostra e assim condená-lo ao banimento. “Estou cansado de ouvir que é um homem justo” - comentou o eleitor. O sábio e justo Aristides atendeu ao desejo do eleitor. Pior que não saber escrever é ser analfabeto político.
Os brasileiros e bauruenses vão hoje decidir seu voto sob o influxo de sucessivos escândalos. Desta vez, muito mais do que em qualquer outro pleito desde a redemocratização, o objeto de toda a discussão centra-se numa série de variantes de delitos éticos com que a opinião pública foi bombardeada ao longo dos dois últimos anos. O assustador processo de degenerescência moral que vitima o Brasil parece não assustar a maioria, segundo demonstram as pesquisas de aferição dos humores da opinião pública. Deus elegeu mal e fez-se homem crucificado entre ladrões, como autopunição. Se errarmos, que Ele, na sua infinita misericórdia nos reserve pena mais leve.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC