08 de julho de 2026
Política

‘Continuidade será marca da eleição’

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 6 min

No dia da eleição, o Jornal da Cidade traz análises feitas pelos professores e cientistas políticos Maximiliano Martin Vicente, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Sebastião Clementino da Silva, o Macalé, da Universidade Sagrado Coração (USC), sobre o pleito. Ambos não acreditam em votos de protesto por parte dos eleitores, pelo contrário, avaliam que haverá continuidade de poder no governo federal, mas essa continuidade está ameaçada pela falta de apoio de deputados e senadores, já que os partidos aliados ao atual governo devem sofrer baixas significativas nas urnas.

Em quase uma hora de conversa com a reportagem, Max e Macalé debateram o momento atual, seus reflexos na hora do voto, os motivos pelos quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição não foi atingido pelos escândalos que derrubaram seus principais aliados e porque, até o momento, o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, não convenceu as massas. Reproduzimos abaixo os pontos principais dessa conversa entre os professores.

• Continuidade

Macalé - Acredito que esta será uma eleição de continuidade de mandato presidencial e de alguns governadores. Acredito também que é uma eleição de afirmação da classe menos favorecida, que agora está votando de acordo com sua consciência, não estão mais fazendo o jogo da classe dominante porque tiveram uma ascensão social nos últimos três anos e meio. Então, é uma eleição de separar o joio do trigo, da classe dominante contra o dominado.

Max - Está perfeito, mas acho que têm muitos pontos pouco claros nesta eleição. A princípio eu diria que é uma continuidade das anteriores, nem mais nem menos. Eu concordo com o Macalé que houve polarização de forças, mas eu vejo uma polarização pela elite. O sistema bancário fechou com o Lula e o setor produtivo fechou com o Alckmin. Então é uma disputa de elites, para manter o sistema que está aí. Nunca os bancos lucraram tanto e sobrou para o pobre as migalhas, que são essas bolsas, que para eles é fundamental.

• Pesquisas

Max - As pesquisas não mostram a realidade, porque não levam em conta a densidade populacional. O Lula vai muito bem no Nordeste, mas na hora de somar os votos, ele pode ter uma surpresa. Creio que ele vai manter um resultado razoável, do eleitor fiel, mas creio que o segundo turno está bem próximo de acontecer.

Macalé - Essa questão da densidade demográfica é importante, porque nos grandes colégios eleitorais é que estão os indecisos. Temos que levar isso em consideração. Pode haver segundo turno, mas na minha visão a probabilidade é mínima, já que o caso do dossiê não promoveu grandes mudanças nos números.

• Segundo turno

Macalé - Lula terá mais dificuldades se ocorrer o segundo turno. Foi um ano e meio falando de escândalos, quais seriam os fatos novos que poderiam ocorrer? Teria que ser algo bem significativo, porque o segundo turno é outra eleição. Mas não podemos descartar os avanços na economia, a redução de miseráveis no País, o agricultor passou a ter maior aproveitamento familiar. O Lula tem muito mais cartas na mão para jogar em um eventual segundo turno do que o Alckmin. Eu acredito que em uma nova eleição, eles terão que mostrar projetos, e não mais as denúncias.

Max - Qualquer que seja o resultado eu digo que hoje o Lula tem muita chance de não tomar posse, porque foi a primeira vez que o Lula foi atingido, já que se trata de dinheiro de campanha. E dinheiro de campanha, ou você prova origem, ou você é impugnado. Se o Lula vencer, terá que encarar outro problema: a governabilidade. Porque o PT não fará maioria, então terá que compor com o Serra e o Aécio, que não vão querer um País quebrado, já que são candidatos em 2010. E o dossiê é a arma que o Lula pode ter para negociar com o PSDB.

• O papel da imprensa

Max - A imprensa foi totalmente cooptada pela classe política, sem ela saber. Achou que estava denunciando e estava a serviço da política e esqueceu do fundamental: ver o que o povo pensa. A televisão fez um jogo ambíguo, porque estava em jogo a concessão da televisão digital, na qual o Lula, de uma forma desonesta, incompetente, incapaz, mercadológica, atendeu os interesses da Rede Globo com a concessão. A imprensa tem que tomar cuidado, porque ela foi isca, achando que estava denunciando enquanto era manipulada, tanto é que muitas CPIs funcionaram por causa de documentos que a imprensa forneceu e não pelo que os deputados investigaram, e aí no final: pizza!

Macalé - Houve muito denuncismo por parte da mídia, sem verificar os fatos. Muitas das denúncias apareceram através de atos isolados, pré-julgando a pessoa. Isso foi colocado no congresso latino de jornalistas, onde foi falado que a imprensa brasileira está fazendo o papel de juiz da situação, sendo que ela teria de levantar os fatos e esperar acontecer. Se fosse pela imprensa o Lula já estaria condenado. Acho que tem que olhar com mais carinho a imparcialidade e a imprensa não é mais a grande formadora de opinião para as classes menos favorecidas, então ela deve rever a postura de denuncismo e mostrar os fatos.

• A formação da Câmara

Macalé - Há grande possibilidade de renovação do Congresso, acredito que vamos ter até 62% de renovação. Tem uma mancha perturbando tanto senadores quanto deputados, porque essa enxurrada de denúncias fez com que nós tivéssemos menos credibilidade nos políticos, porque muitos deles estão preocupados em tornar privado o que é público. Acho que os eleitores estão se organizando para fiscalizar melhor o Congresso, porque até então nós dávamos um cheque em branco para os deputados. Dos 513 deputados, existem 100 que trabalham de verdade e 413 que a gente nem sabe o nome. E o baixo clero é importância, porque ele não aparece nas grandes discussões, mas tem poder de influência.

Max - No governo Lula nós tivemos a publicação de Medidas Provisórias, uma atrás da outra, o Congresso simplesmente parou. O problema são as reformas estruturais, que por uma postura extremamente complicada dos deputados você não consegue mexer, e eles usam isso como poder de barganha. A maioria dos deputados vai lá com o intuito de pensar na região dele, mas o deputado federal não é um vereador federal, ele está lá para discutir os problemas do País. Quanto à renovação, não importa, pode haver, mas se não mudar a estrutura de funcionamento, não vai adiantar. Quando a gente fala em reforma política, o que se pensa é em tornar o Congresso operativo. Eles são eleitos para mexer com as estruturas do País, não para conseguir verba para o hospital de Bauru. Ele tem que tratar da saúde, não do hospital, tem que cuidar da educação, não da escola, tem que tratar da violência, não da prisão. Esta é a função do deputado federal.