09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: O conhecimento do conhecimento

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

“Pai, você gostou de ser soldado?”, perguntou o filho. O pai, com um semblante nostálgico, respondeu: “Foi muito difícil, mas mesmo assim foram bons tempos aqueles!” “Mas, pai”, continuou o garoto, “vocês estavam em guerra!” “Então”, respondeu o pai, “por isso não foi nada fácil.” “Mas, você também acha que foram bons tempos”, tentou entender o filho. “Sim, naquela época existia união entre nós, éramos verdadeiros camaradas!”, respondeu o pai. “Mas e os mortos? E tudo o que foi destruído?”, questionou o garoto. O pai interrompeu bruscamente a conversa dizendo: “E você precisa estragar nossa memória se lembrando de tudo?”

O conhecimento humano é uma estrutura dinâmica. Nós adquirimos verdadeiro conhecimento através da percepção de nossos sentidos, pelo entendimento e compreensão daquilo que percebemos e pelo julgamento que fazemos das coisas, pessoas e situações. O conhecimento só é completo e, portanto, uma estrutura dinâmica, quando estas três partes existem e estão em plena interação. Se perdermos uma delas, o conhecimento se torna falho.

Se por acaso uma destas partes for substituída por alguma outra coisa este conhecimento se deforma. Por exemplo, se julgamos alguma coisa sem o entendimento, sem a compreensão substituímos o conhecimento pela arrogância. Se não prestamos a devida atenção as nossas próprias experiências podemos cair no erro de simplesmente adotarmos concepções preestabelecidas, ou seja, preconceitos e não construirmos o nosso próprio conhecimento. Desta forma, o conhecimento humano não é somente experiência (a percepção dos sentidos), não é somente entendimento e compreensão (exercício da razão) e não é somente julgamento (a nossa escolha entre o certo e o errado, o bom e o ruim, o bem e o mal).

Experiência, entendimento e julgamento devem se desenvolver juntos e assim formarem a estrutura dinâmica que é o conhecimento. Somente através desta dinâmica entre experiência, entendimento e julgamento, o ser humano não somente absorve diferentes e novas idéias, como também ele se forma a si próprio.

Se o conhecimento é uma estrutura, o conhecimento do conhecimento é uma dupla estrutura. Se conhecimento é uma interação entre experiência, entendimento e julgamento, o conhecimento do conhecimento é em primeiro lugar uma experiência de nossa vivência, do nosso entendimento e do nosso julgamento. O conhecimento do conhecimento é também um entendimento da nossa experiência, da nossa compreensão e do nosso julgamento.

Por fim, o conhecimento do conhecimento é o julgamento da nossa experiência, do nosso entendimento e do nosso julgamento. Se conhecer o conhecimento é uma dupla estrutura: ele é experiência, entendimento e julgamento sobre nossa experiência, entendimento e julgamento de nosso universo. Simplificando, o ser humano deve ser capaz de conhecer a sua visão de mundo, o seu conhecimento, e isso significa viver uma confrontação com nossas idéias e concepções, tentar compreender até que ponto estas idéias e concepções foram formadas e julgá-las se estão corretas, se são úteis, boas e nos ajudam a construir uma vida saudável e feliz. Somente exercitando o conhecimento do conhecimento podemos vivenciar uma transcendência de nosso próprio ser e nos libertarmos da mediocridade.

Sem dúvida alguma, o conhecimento do nosso universo através de nossas experiências, do exercício do entendimento e do julgar já é um exercício exigente. Nos confrontar com aquilo que pensamos, analisar nossas idéias e julgá-las é um exercício mais exigente ainda, porém, extremamente necessário. Facilmente nos encontramos em grandes contradições se não conhecermos o nosso conhecimento: nós podemos ter uma fé cristã e continuar a contar piadas racistas; acreditar que Deus nos protege e ler nos jornais diariamente a quantidade de vítimas fatais em acidentes nas estradas.

Nós podemos defender a democracia e sermos autoritários frente às pessoas que nos circundam; nos escandalizar com a corrupção dos políticos e continuar a desrespeitar as leis de trânsito. O ser humano pode acreditar ser sujeito de sua história, mas não deixar de ver o horóscopo do dia ou procurar uma cartomante para visualizar o seu “destino”. Adquirir informações não é difícil, o grande desafio é construir um verdadeiro conhecimento sobre si mesmo, sobre seu universo e sobre a vida. Além deste grande desafio é necessário eliminar as contradições conduzindo uma vida verdadeiramente consciente do que somos. A questão shakespeareana “ser ou não ser” só pode ser resolvida conhecendo o nosso próprio conhecimento.