09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Novamente o censo animal


| Tempo de leitura: 4 min

Professora e ambientalista Vera R. Jeanete Cardoso, parabéns pela sua carta, publicada no dia 9 de setembro. Uma carta tão bem escrita, tratando da questão dos animais em nossa cidade com tamanha clareza e objetividade, mostra que nossos queridos e tão sofridos bichos podem ter alguma esperança. Existem outras pessoas que se importam. Normalmente, sinto-me isolada quando faço a defesa dos animais em geral. As pessoas me ouvem e me olham como se eu fosse um ET e partem para a gozação, para o risinho irônico: é assim que, via de regra, o ser humano demonstra sua suposta superioridade intelectual.

Você, como ambientalista, fala com toda propriedade do desconhecimento daqueles que não compreendem a importância da preservação de todas as espécies vivas, não somente a espécie humana, como se fosse esta mais importante que as demais. É profunda a ignorância de muitas pessoas ao demonstrar descaso e falta de interesse pela situação de abandono, falta de assistência e políticas públicas que, ao menos, viessem minimizar o sofrimento dos animais e resolver a questão dos cães e gatos errantes em nossa cidade. O que se vê são programas de incentivo à posse responsável que simplesmente não saem do papel, nenhum programa de promoção da castração coletiva, evitando a explosão de nascimento de mais animais, programas complicados para a compra de coleiras, visando que cada um tome conta do seu animal, quando sabemos que o que vai acontecer é muita gente colocar seu bicho na rua para não assumir responsabilidades.

E o que dizer do horror, da visão dantesca dos carroceiros, cujo número aumenta a cada dia. Entendemos a busca dessas pessoas pela sobrevivência, mas algo urgente precisa ser feito para a regulamentação dessa atividade, tendo em vista o benefício a essa população carente e sofrida, mas também para se evitar a crueldade praticada com os cavalos, que se arrastam sob sol ardente, por horas a fio, sem nem sequer receber uma vasilha com água. A conseqüência inevitável é a perda do animal e o agravamento da situação de quem vive de recolher o lixo reciclável, que deveria ser orientado para preservar o animal, que é imprescindível para o seu ganha-pão.

Em nossa cidade, particularmente, muito poderia ser feito pela erradicação da leishmaniose, uma verdadeira “vergonha” para Bauru, sendo a campeã nacional de incidência dessa doença. Ao invés de um grande mutirão de limpeza de toda a cidade, praças, terrenos vazios, de todos os quintais, da conscientização de proprietários para não abandonar fezes de seus cães a céu aberto (uma tremenda cara de pau!), parte-se para culpar o cão como transmissor da doença e as eutanásias continuam acontecendo, desenfreadamente. Matam-se os cães, mas a doença continua graçando solta, e atingindo os seres humanos também.

Que inveja dos moradores da cidade de Turim, na Itália, como você informa na sua carta. Lá só tem um cão quem realmente pode tê-lo e tratá-lo de forma decente. Aliás, em outros países da Europa, como a Espanha, por exemplo, a leishmaniose é tratada normalmente nos cães, assim como é tratada nos seres humanos. Em nosso país, infelizmente eu não enxergo essa luz no final do túnel: uma luz de respeito, civilidade, cidadania, amor ao próximo, mas não apenas ao próximo “humano” e sim a todo próximo “vivo”, que sofre e precisa de cuidados.

Concordo com a sua idéia de fiscalização da criação de animais para venda, que acontece em fundos de quintal, em fundos de clínicas, pet-shops, etc. Causa-me arrepio aqueles carros parados, com o porta-malas levantado, carregado com várias gaiolas contendo filhotes à venda. As pessoas se iludem e compram o animal, sem questionar a procedência e completamente “no escuro” em relação à saúde do bichinho. É muito comum que, passados 30 dias, esses animais apresentem doenças graves e venham a óbito. Além disso, é uma crueldade o que se faz com as fêmeas, que emprenham vezes seguidas, até ficarem imprestáveis, fracas, doentes e, aí, relegadas a segundo plano. O objetivo é o lucro desenfreado pela venda dos filhotes, e, isso, a qualquer custo. Sou proprietária de uma cadela, que adotei numa feira no Parque Ibirapuera em São Paulo. Ela foi gerada por um criador que, ao constatar que ela não preenchia todos os requisitos da raça (dush-hound) e não poderia ser vendida pelo preço que ele almejava alcançar, simplesmente jogou-a numa lata de lixo, ainda muito pequena. Por acaso, foi encontrada e cuidada por boas pessoas que a encaminharam para adoção.

Quanto tempo ainda o homem vai demorar a entender que o amor e extrema fidelidade de um cão ou gato não passam nem de longe pela raça ou pedigree. O cão “tomba-lata” pode não ser tão bonito e vistoso, mas é igualmente amoroso, companheiro, fiel, e traz para o lar que o adota a mesma alegria, além da profunda gratidão. Que o digam os meus queridos cães: Chi-cão, Vampeta e Nina e minhas amadas gatinhas: Lilica, Lua e Melody, todos resgatados das ruas.

Luci N.C. Moura e Silva