As pessoas costumam aguardar determinadas coisas de maneira tranqüila durante dias, meses e até anos. Mas basta mexer na cervejinha do domingo que a situação muda e muitos entram em desespero.
A lei seca, que esteve em vigor ontem, das 8h às 17h por conta do processo eleitoral, é prova incontestável de que a afirmação acima é verdadeira. A intenção – mais que louvável – de impedir que eleitores comparecessem alcoolizados a locais de votação, causando balbúrdias, está longe de ser unanimidade entre os bauruenses.
Enquanto alguns criticam a regra, outros partem para tentativas explícitas de desrespeito à determinação. Marcos Fromming é encarregado do setor de mercearia de um supermercado localizado no Jardim Estoril, zona sul da cidade. Ele teve trabalho para conter consumidores “desesperados” por adquirir bebidas alcoólicas ontem.
“Foi complicado”, conta. “O pessoal apelou para todo tipo de estratégia. Alguns discutiam, outros escondiam garrafas atrás de outras mercadorias”, afirma. Nas prateleiras do estabelecimento estavam distribuídos diversos cartazes com alertas sobre a proibição.
Mas a impaciência era grande. “Chegaram a abrir latas de cerveja escondido”, diz Fromming. No corredor do supermercado destinado às bebidas com álcool era fácil encontrar caixas de cerveja que haviam sido barradas nos caixas.
Um consumidor de 65 anos, que estava presente ao local por volta das 15h e preferiu não se identificar, carregava em seu carrinho cerca de 24 latas da bebida. Ao ser abordado pela reportagem do JC, ele afirmou estar consciente da proibição.
“Mas como moro longe (no bairro Higienópolis) e estava passando por aqui, resolvi aproveitar a promoção e levar algumas para tomar no domingo que vem”, garante ele, que acabou devolvendo as caixas de cerveja à prateleira.
A lei seca não trouxe prejuízos apenas aos apreciadores de álcool. Supermercados também sofreram quedas expressivas no movimento durante o período em que a determinação esteve em vigor.
“Aqui no supermercado caiu em torno de 8% em relação aos demais domingos”, calcula Fromming, ao mesmo tempo que reconhece que a diminuição foi compensada por um consumo maior ocorrido no sábado.
“Foi um aumento perto dos 10%”, afirma. “O pessoal resolveu estocar”, diz o encarregado. Muitos não foram bem sucedidos em armazenar bebida para o período das eleições. A estudante de pedagogia Lúcia Helena Gomes era uma dessas pessoas.
“Infelizmente não consegui comprar adiantado. Agora tenho de esperar até depois das 5h da tarde”, disse ela em frente a outro supermercado, por volta das 14h30. “Mas tenho esperança de que ainda vou achar algum lugar onde possa comprar, nem que seja escondido”, brinca.
Gomes – grande apreciadora de cervejas e vinhos – considera a lei seca absurda. “Enquanto proíbem o povo de beber no dia de hoje (ontem), os políticos e poderosos passam o ano todo enchendo a cara às nossas custas”, critica.
Nem todos endossam a opinião dela. O empresário Marcos Soares, por exemplo, é favorável à lei seca. “Isso evita que as pessoas exagerem na bebida e arranjem confusão”, ressalta ele, enquanto apreciava um copo de chope numa lanchonete do shopping, pouco depois das 17h, quando a determinação já não estava mais em vigor.
Mesmo pessoas que, na teoria, deveriam ser contra a proibição mostravam-se favoráveis à visão de Soares. Alex Gasparini, que é político (presidente do diretório municipal do PMDB), comprava ontem artigos para churrasco no supermercado onde Fromming trabalha.
“Vou ter de esperar mais duas horas (eram 15h) para levar cerveja”, disse. Para ele, a proibição da venda de bebidas é necessária, uma vez que garante que eleitores votem de maneira consciente. “Se sem estarem alcoolizadas as pessoas já erram bastante na hora de votar, imagina se estivessem de cara cheia”, pondera.