Não é exagero nem novidade afirmar que quase tudo no Japão é digno de um país do chamado Primeiro Mundo. Exemplos típicos dessa condição nipônica podem ser vistos e apreciados no sistema de trânsito, um dos mais organizados e modernos do planeta, e no mercado automotivo, que figura entre os mais ricos e tecnológicos da Terra. Mas quais seriam alguns dos segredos do sucesso japonês nessas áreas, que também são repletas de curiosidades?
Quem conta, mais uma vez, é Daniel Gimenes, bauruense residente no Japão há quase dois anos e que, na edição passada do AutoMercado & Cia, revelou as estratégias adotadas pelo país para superar as limitações de trânsito impostas pela extrema falta de espaço físico.
A imposição de taxas altíssimas para tirar licença de rodagem para carros com mais de 15 anos de fabricação é um dos exemplos da organização japonesa no trânsito. “Os japoneses são tão apaixonados por carros como os brasileiros, pois chegam a fazer parte da família. Mas que ninguém se iluda. Quando os veículos ficam velhos, normalmente aqueles que passam dos 15 anos de idade, ninguém quer arcar com os custos de conseguir licença especial para o veículo. Assim, ele vai para o amassador e acaba virando um quadrado de meio metro de altura de ferro, plástico e borracha!”, enfatiza Gimenes, que trabalha como professor de geografia e história dando aulas para brasileiros no Japão.
Além da constante renovação da frota, outra providência - que chegou até a ser discutida no Brasil, mas foi abandonada por uma injustificável alegação de preconceito - para evitar acidentes de trânsito atinge diretamente os motoristas novatos e com pouco tempo de habilitação. Ao sair de carro pelas ruas e estradas japonesas, eles são obrigados a utilizar um adesivo, coincidentemente nas cores verde e amarela, colado ao carro. “O motorista iniciante, que acabou de tirar a sua carta, deve andar com um adesivo, de dimensões bem avantajadas e, normalmente, maior que a lanterna traseira, nas cores verde e amarela, avisando assim a todos que se aproximarem de que ele ainda não tem experiência no volante”, detalha o bauruense.
A preocupação japonesa com a segurança estende-se até mesmo com o estepe dos veículos, que, além de ter tamanho menor em relação ao pneu original, é de cor diferente. “É um pneu com dimensões bem reduzidas no que se refere a largura da banda de rodagem do pneu original. Geralmente, é da metade do tamanho e a calota é pintada em um amarelo tão chamativo que não combina com absolutamente nada no automóvel. Assim, o carro fica tão feio esteticamente que faz com que o proprietário procure uma oficina para trocar pneus o mais rápido possível. Sim, é uma oficina mesmo, pois no país não existem borracharias. Aqui o pneu é trocado nas grandes oficinas de carros, que também são acompanhados por lojas de acessórios no mesmo local”, esclarece Gimenes.
Além disso, como era previsível, as leis de trânsito nipônicas são extremamente rígidas, principalmente em relação aos pedestres e deficientes físicos, que também utilizam adesivos nos carros para identificá-los. “Aqui não tem conversa para quem atropela um pedestre ou bate em um veículo guiado por um deficiente físico: vai preso na hora, independentemente de estar certo ou errado, e depois tem de se virar com a Justiça”, alerta o bauruense.
Entretanto, Gimenes acrescenta que a legislação japonesa também premia os bons condutores. “Como no Brasil, se você cometer alguma infração, leva pontos na carteira. Só que estas vão ganhando status e, conforme ela envelhece e o condutor não tenha nenhum registro de multa ou incidente, pode atingir o último patamar, que é a “Gold”. O portador desta, quando é parado por algum policial, certamente é mais respeitado, pois passou mais de cinco anos sem cometer nenhuma infração no trânsito.”