Platão, genial filósofo grego, na altura dos seus setenta anos, escreveu em uma de suas cartas: “Outrora na minha juventude experimentei o que tantos jovens experimentaram... tinha o projeto de, no dia em que pudesse dispor de mim próprio, imediatamente intervir na política”. Um dos escritos mais interessantes (e sempre atual) de Platão é a alegoria ou mito da caverna, onde, de acordo com a história original, descrevem-se os habitantes de uma caverna, acorrentados de costas para a sua entrada e que apenas percebem o mundo pelas sombras projetadas na parede à frente deles, resultado do que acontece fora da caverna.
Porém, em um determinado momento, um desses prisioneiros consegue escapar e contemplar o mundo real, retornando a caverna para tentar libertar seus companheiros. Mas, ao invés disso, o fugitivo é morto e os demais prisioneiros preferem ficar na mesma situação anterior à fuga e presos em sua escuridão. Apesar de ser um texto escrito cerca há quase 2500 anos atrás, Helen Keller (1880-1968) o torna cotidiano através de uma, das suas diversa frases célebres: “A ciência poderá ter achado a cura para a maioria dos males, mas ainda não achou remédio para o pior de todos, a apatia dos seres humanos”.
Essa apatia (ou comodidade) descrita acima é o que estamos observando hoje em nosso país, ganhando cada vez mais expressão, onde não buscamos (e nem queremos) alterar a realidade pelo simples fato de considerarmos que seja impossível mudá-la. Mas será esse tipo de comportamento tão presente assim? Vejamos... Quem nunca ouviu frases como estas: - Todo governo é corrupto, então porque perder tempo votando! Vou anular o meu voto! - Dizem que esse governo é corrupto, mas todos são! Então, para que me preocupar? Não quero nem saber!
- Eu não posso fazer nada para mudar o país! Vou é cuidar da minha vida! Esses e outros comportamentos sempre existiram, mas tomam dimensões cada vez mais preocupantes nos dias de hoje e, para tomarmos exemplos mais populares, trata-se de um comportamento que ficou muito claro na novela “Belíssima” onde, através de resultados de pesquisas populacionais, notou-se que grande parte da população queria que a personagem “Bia Falcão” interpretada pela magnífica Fernanda Montenegro conseguisse sair ilesa de seus crimes (e saiu!).
O que observamos é um descaso e, porque não dizer, acomodação, a tudo que nos afronta: a cada dia mais notícias de corrupção, mais tributação, mais escândalos, maiores juros. E, proporcionalmente, cada dia menos emprego, piores condições do sistema de saúde, e descaso com os rumos do país. Sendo assim, está na hora de nos libertarmos das correntes culturais que nos prendem no interior de nossas cavernas e mudarmos a realidade de nosso país sim! Como diz o personagem “V” (do filme “V de Vingança”), não é o povo que deve temer o seu governo, mas sim o governo que deve temer o seu povo! E, para finalizar, conforme diz Evaldo Alves d’Assumpção em seu livro Comportar-se Fazendo Bioética: “Se cada um varrer a frente da sua casa, conseqüentemente a rua ficará limpa”. Pense nisso!
O autor, Ricardo Henrique Alves da Silva, é cirurgião-dentista, professor universitário e consultor em saúde