São Paulo - O PT substituiu ontem o deputado Ricardo Berzoini (SP) por Marco Aurélio Garcia na presidência do partido e expulsou quatro petistas envolvidos na compra do dossiê contra políticos do PSDB: Osvaldo Bargas, Jorge Lorenzetti, Expedito Afonso Veloso e Hamilton Lacerda. As medidas foram tomadas após uma reunião de mais de cinco horas da Executiva Nacional da legenda e tiveram como objetivo minimizar os danos políticos à campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A preocupação central do PT é dar a Lula discurso para os debates que enfrentará na TV a partir deste domingo, quando comparece à TV Bandeirantes. Berzoini comunicou a decisão em entrevista coletiva, ao lado dos integrantes da Executiva. Leu uma nota justificando que sai do comando do PT, em licença temporária, “pelo prazo necessário para o completo esclarecimento dos fatos”. “Em nenhuma hipótese eu aceito a condição de envolvido no caso”, disse, após ler a nota. Ampla maioria da Executiva era favorável ao afastamento.
A reportagem apurou que dez petistas manifestaram-se a favor da saída de Berzoini e apenas cinco foram contra. Do chamado Campo Majoritário à esquerda do PT, o incômodo era visível. Petistas disseram que Berzoini chegou reticente à reunião. Reiterou aos correligionários que não sabia das negociações para a compra do dossiê. Num desabafo aos colegas, chegou a dizer que estava sendo “fritado”. A líder do PT no Senado, Ideli Salvatti, chorou e lembrou a saída de José Genoino da presidência do PT.
O discurso de Lula, pela manhã, foi a senha para que Berzoini entendesse a dimensão do problema e o real desejo dele. Apesar de Lula ter elogiado Berzoini, quem conhece o presidente argumenta que ele costuma agir por sinais trocados. “Lula elogiou todos os ministros que demitiu”, explicou um petista. “Os sinais são sempre transversos”, disse outro. Ao ser questionado se seu afastamento ajudaria Lula a ter argumentos no debate, Berzoini disse: “Tenho certeza de que o presidente tem tranqüilidade para lidar com esse tema, até porque não tem qualquer ligação com isso, assim como a coordenação nacional da campanha exercida por mim”.
Berzoini negou ter sido pressionado por interlocutores de Lula. “Ninguém me pressionou neste caso. Houve colocações e opiniões políticas legítimas e que merecem respeito.” Segundo Berzoini, a licença foi necessária para “esclarecer com tranqüilidade a opinião pública”. Berzoini vai prestar depoimento à Polícia Federal na próxima semana. Berzoini disse ainda que procurou Bargas e Lorenzetti no início da crise: “Infelizmente, não obtivemos informações suficientes para ter segurança em relação a esse caso.”
O novo presidente do PT passou a reunião calado. Ao final, Garcia elogiou a atitude de Berzoini. Ele disse que pretende devolver o posto a Berzoini, que considerou um “abacaxi”. Mas explicou: “Não é um abacaxi. É um abacaxi para mim. Não sou uma pessoa que esteja à altura dessas responsabilidades. (...) Entendam a expressão com a carga irônica que sempre dou a pronunciamentos”.