Quem habitava e como eram o clima e a vegetação da região de Bauru há 70 milhões de anos? Através da descoberta de microfósseis de crustáceos que viveram na época, por um paleontólogo de Marília que recolheu e analisou amostras de rochas retiradas de barrancos às margens da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, há cerca de 8 quilômetros de Bauru, será possível chegar a algumas respostas para esta pergunta.
Há dois meses, movido pela curiosidade, o paleontólogo Wiliam Nava, do Museu de Paleontologia de Marília, resolveu parar seu carro quando passava pela rodovia, no sentido Jaú-Bauru, próximo ao Horto do Aimorés e, com o auxílio de uma enxada, remover a vegetação do solo e recolher pedaços de rochas. “Há alguns meses, passei pelo local. Como havia obras, o solo estava exposto, o que me chamou a atenção”, revela.
Depois de fazer o processo de limpeza e secagem do material coletado, Nava iniciou os estudos. O principal objetivo seria classificar e datar o tipo de sedimento encontrado. No entanto, quando observou a rocha com auxílio de uma lupa, o pesquisador reparou a presença de pequenas estruturas esbranquiçadas. “Quando quebrei outros pedaços, pude ver aglomerações”, conta.
Com o auxílio de um microscópio, Nava pôde comprovar que as estruturas, na verdade, eram minúsculas conchas, de aproximadamente 3 milímetros de diâmetro. “Elas são iguais às conchas encontradas na praia, mas com dimensões muito reduzidas e imperceptíveis a olho nu. O formato é semelhante a um grão de arroz”, explica o paleontólogo.
Lago
A constatação da presença dos minúsculos crustáceos indica que no passado a região seria um lago. “Provavelmente era uma pequena lagoa, com pouco movimento de água, e os pequenos animais habitando o fundo dela”, afirma.
De acordo com o pesquisador, por algum motivo a água do lago teria secado, a lama do fundo cobriu as conchas e secou. Com o passar do tempo, mais sedimentos foram se juntando e originaram a formação rochosa arenítica.
Com as movimentações naturais do solo, os fósseis foram trazidos à superfície. “Provavelmente uma grande atividade sísmica, há cerca de 60 milhões de anos, aliada a processos erosivos, expôs as rochas”, explica Nava.
Segundo o paleontólogo, tais descobertas chegam a ser mais importantes do que a localização de vestígios de animais de grande porte, como dinossauros. “Através dos estudos desses animais, podemos elencar informações sobre os ambientes da época, como clima, vegetação e relevo, por exemplo”, afirma.
Através de estudos geológicos, principalmente por meio do encontro de fósseis, os cientistas sabem que toda a região centro-oeste e oeste do Estado abrigava sedimentos que, há milhões de anos, fizeram parte de um cenário composto por planícies extensas, com rios e lagos rasos e efêmeros, com clima quente e seco.
Com a descoberta, Bauru passa a figurar na lista de cidades do Interior do Estado onde são encontrados microfósseis, corriqueiros em Presidente Prudente, Marília, São José do Rio Preto, Ibirá, Flórida Paulista e Pacaembu.
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Outras ocorrências
O paleontólogo Wiliam Nava afirma que, em 2001, encontrou às margens da SP-294, na serra entre as cidades de Gália e Duartina, um grande fragmento ósseo pertencente a um dinossauro do grupo dos saurópodes, provavelmente um titanossauro. O pedaço de osso faria parte do úmero (braço) e, pelas proporções, indicaria que o animal seria de grandes proporções. Por este motivo, o paleontólogo não descarta a hipótese de que, em Bauru, também possam ser encontrados vestígios de animais vertebrados de maior porte.
Segundo Nava, há alguns anos um fóssil de peixe foi encontrado em Piratininga, durante a perfuração de um poço a cerca de 60 metros de profundidade.