Cinco horas da manhã do mês de julho de 1974. Estávamos acampados em frente à Reserva Florestal do rio Tapajós, entre Santarém e Altamira, uma das regiões mais inóspitas da selva amazônica. Já havíamos percorrido de Kombi 4.610 quilômetros de estradas de terra e 500 milhas náuticas de Manaus a Santarém, descendo as águas turbulentas do rio Amazonas.
Ainda assim teríamos pela frente outro tanto, para completar nosso roteiro, partindo de Bauru a Belém, via interior do maior conglomerado verde do planeta, a selva amazônica.
Éramos em seis: eu, minha mulher, Eunice; e dois filhos, Jacson, com 16 anos, Marcelo, com apenas 6; um casal de Agudos, Aldo e Lúcia Paschoal (que Deus a tenha a seu lado), e um cachorrinho fox, pequeno, mas de latidos tão estridentes que afastavam estranhos e animais selvagens.
Acordamos com seus rosnados.
- Aldo!
- Estou ouvindo.
- Vamos observar daqui mesmo.
Afastei a cortina da janela da Kombi, esfreguei meus olhos para confirmar se era o que eu estava pensando: era. Levei um baita susto ao vê-los, talvez tramando sobre nosso acampamento desprotegido. Três deles encostados a uma picape antiga e em frangalhos e dois na caçamba, segurando um porco pelas orelhas e uma tartaruga presa a um cordel resistente.
Um deles, o mais forte, vestia uma bermuda ¾, que parecia ser feita para físico menos desenvolvido. De tão justa a seu corpo, alguns botões se soltavam, deixando à mostra tufos de pêlos pubianos. Isto parecia não o incomodar; os nus humanos, para seus costumes, não tinham preceitos visuais que lhes despertassem desejos íntimos.
Penacho colorido pendia-lhes dos canos de sua arma de grosso calibre e um cinto largo. Porta-cartuchos, carregados, atravessava em diagonal seu peito nu, à maneira de Lampião, o rei do cangaço, que implantou terror nos Estados de Sergipe, Bahia, Alagoas e Ceará, até tombar com sua mulher, Maria Bonita, e 11 cangaceiros, em 8 de julho de 1938, e terem suas cabeças degoladas e expostas à curiosidade pública.
O índio mais atlético e com ares de chefia tribal se aproxima e fala de maneira decidida:
- Índio quer roupas, facão, enxada, corda; índio dá porco e tartaruga.
Fez um sinal e seus companheiros levantaram os dois animais pelas pernas. Seus grunhidos estridentes acordaram o Banzé, que deu um pulo e se levantou latindo e correndo em direção àquele guinchar estranho.
Aproximou-se deles, recebendo um forte chute, ao que foi jogado distante. Antes de respondermos às suas propostas, foram se aproximando do acampamento, vasculhando, com olhares de posse, todos os objetos expostos. Nenhum de valor que compensasse alguma objeção de nossa parte. Pegaram o espelho, algumas colheres, o enxadão e um punhado de cordinha de pára-quedas e um facão.
Voltaram à caminhonete, pegaram o leitão e o jogaram a nossos pés. O pequeno suíno, vendo-se livre, não perdeu tempo e embrenhou-se na mata e o Banzé atrás, mancando e latindo. O suíno, mais rápido, desapareceu. Só o Banzé retornou.
Os índios não viram nem as madames nem as crianças, embora demonstrassem curiosidade nesse sentido, a ponto de tocar a maçaneta da Kombi, que estava trancada. Ficamos apavorados. Hesitaram por uns momentos e se foram.