Algumas realidades demoram tempo para se concretizarem. No caso da Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis (Cotramati) a espera foi longa. Foram necessários nove anos para que a associação de catadores de lixo do Jardim Redentor pudesse se legalizar.
O passo decisivo para a transformação em cooperativa (pioneira na cidade) ocorreu há alguns anos, quando os catadores começaram a contar com assessoria da Secretaria Municipal de Bem-Estar Social (Sebes).
Os membros da associação passaram a receber palestras e orientações sobre como montar gerir um negócio. Munidos de informações e apoio necessários, os 20 coletores de recicláveis puderam finalmente transformar em realidade o desejo de trabalhar numa cooperativa.
Vera Lúcia de Souza Xavier é uma dessas pessoas. Ela entrou para o grupo há oito anos, após ficar desempregada. “Eu trabalhava em casa de família, mas tinha que faltar muito para cuidar do meu filho, que era doente”, conta. Xavier conseguiu contornar a situação durante um tempo, até que um evento inesperado mudou sua vida.
“O marido da minha patroa morreu, então ela resolveu se mudar para São Paulo. Acabei ficando sem trabalho”, conta. Os cuidados com o filho fizeram com que Xavier desistisse de procurar emprego. “Mas a situação foi apertando e tive que ir catar recicláveis”, diz. Solteira, ela não tinha que a ajudasse no sustento da família.
“No começo deu medo, pensei que não seria capaz. Hoje sinto orgulho, porque sei que estou ajudando a limpar o meio ambiente”, acredita. O sentimento que Xavier cultiva em relação ao trabalho de catadora é unanimidade entre os membros da Cotramati.
“Hoje em dias eles se enxergam como microempresários, trabalham com empreendedorismo e sentem-se muito satisfeitos em realizar este trabalho tão importante para a comunidade”, diz Ireni Mendes Souza, assistente social da cooperativa, em referência à reciclagem de lixo feita no local.
A Sebes pretende apoiar a criação de projetos semelhantes em outra regiões de Bauru, em especial a zona norte, onde o número de coletores de materiais recicláveis é maior. “Seriam ramificações da Cotramati, que funcionaria como uma espécie de cooperativa núcleo da cidade”, explica Souza.
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Segredo
Darci Nogueira é primeiro bauruense a desfrutar do apoio do programa de microcrédito da Secretaria de Bem-Estar Social (Sebes). A forma como ele teve acesso ao empréstimo foi inusitada. Antes ele morava numa fazenda e fazia trabalhos pesados.
“Consertava cercas, operava trator, carregava sacos. Aí veio a cirurgia”, conta. Nogueira teve de colocar duas pontes de safena, motivo pelo qual foi obrigado a trocar a fazenda pela cidade.
Por um tempo ele permaneceu parado, até que fez uma descoberta. “Minha filha fazia curso de bordado manual no Núcleo de Apoio à Família (NAF) aqui do Jaraguá. Um dia ela saiu e esqueceu um trabalho sobre a mesa. Achei interessante e tentei terminar”, diz.
A empreitada foi bem sucedida, mas Nogueira não teve coragem de exibir o talento para a família. “Tive vergonha. Pensei que fossem dizer que era coisa de mulher”, reconhece. Ele ainda conseguiu manter o segredo durante um tempo. “Minha filha encontrou o bordado durante uma faxina e percebeu que tinha sido feito por outra pessoa”, diz.
Nogueira foi obrigado a assumir o segredo perante toda a família. “E foi bom, porque todo mundo gostou e me deu apoio”, orgulha-se. Hoje ele ganha R$ 400,00 ao mês vendendo seus trabalhos. “Até corrijo minha filha quando ela faz algum ponto errado”, afirma.