08 de julho de 2026
Ser

Eterno namoro

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Em se tratando de casamento, não existem receitas prontas para construir uma união saudável e feliz. Apesar disto, alguns ingredientes alimentam e ajudam a manter o relacionamento conjugal. Estar em sintonia, viver sempre o presente, respeitar a liberdade do parceiro e minimizar as expectativas em relação ao outro são alguns conselhos apontados por Marilene Krom, doutora em psicologia e psicoterapeuta especializada em casais e família.

Com mais de 30 anos de experiência na área, ela possui quatro livros publicados, entre eles “Leitura e Diferenciação do Mito: Histórias Familiares de Adolescentes com Problemas” e “Família e Mitos – Resgatando Histórias e Prevenção e Terapia” (ambos da Summus Editorial). Esta última obra é fruto de uma extensa pesquisa comportamental realizada pela autora. Durante três anos, ela acompanhou diversos casais em várias etapas do casamento. Entre os resultados, Krom destaca que a importância da confiança e da lealdade, que formam o terreno para a construção de todo relacionamento.

Segundo ela, o casamento é uma conquista diária e manter o namoro “vivo” é fundamental para a boa convivência a dois. “É importante nunca deixar de namorar o seu parceiro, seja com 15, 20, 40 ou 60 anos. É preciso se manter em sintonia, no mesmo tom e no mesmo passo, acompanhando o outro.”

Em entrevista concedida em seu consultório, Krom aborda estes e outros temas, como crises conjugais, influência dos filhos no casamento, além de dicas para manter um relacionamento saudável.

Jornal da Cidade – O que é o casamento?

Marilene Krom - Casamento envolve a idéia da formação do par, uma parceria na qual são atribuídas determinadas funções sociais definidas pela cultura e contextualizadas culturalmente. No século 18 o matrimônio tinha a função de manter a propriedade e unir famílias. A partir do século 19, ele adquire o caráter romântico e de realização afetiva.

JC - Quais são as várias etapas do casamento?

Krom – Em primeiro lugar a pessoa se apega a outra e a partir disto passa a desenvolver a afeição pelo parceiro. Do ponto de vista mítico, podemos dizer que há um encaixe e aproximação das mitologias, ou seja, do jeito de ser de cada um. As trocas afetivas se tornam mais intensas e a intimidade começa a se estabelecer. Há um processo de atração e fusão da maneira de ser dos parceiros. Quando se vive com o outro, ele constrói uma realidade compartilhada. No segundo período, o par irá desenvolver um processo de comunicação e habilidades de relacionamento, porque para conviver com outro é preciso aprender a conversar. Esta também é uma fase em que as pessoas começam a ter conflitos porque precisam aprender a se relacionar com o cônjuge, não é tudo que se fala que o parceiro entende ou gosta. Em um terceiro estágio, o casal irá construir seu próprio espaço, visando alcançar significados comuns e partilhar aspectos da mesma realidade. As pessoas vão alinhando as expectativas. Há um risco, porém, de que essas expectativas sejam irreais. Por isto há necessidade de um certo tempo e convivência para que elas ancorem estas expectativas em um território mais firme possa construir projetos.

JC - É necessário passar por estas etapas? Por quê?

Krom - Casar-se é um projeto e a pessoa precisa ter passado pelas etapas do apego inicial e precisa ter sentimentos de afeição e amor com o outro, além de poder construir situações de convivência agradáveis com o par, porque muitas vezes não basta que a pessoa apenas goste da outra pessoa, mas também que tenha condições de conviver com ela.

JC – Por que surgem os conflitos e brigas no casamento?

Krom - Subjetivamente, quando vivemos com alguém durante algum tempo e este relacionamento alcança dimensões de intimidade, começamos a desenvolver a dimensão do “nós”, ou seja, do casal. E com esta concepção convivemos ao mesmo tempo com o “eu” individual. Como o casal gerencia estas duas dimensões da vida subjetiva pode se tornar a fonte de conflitos.

JC - Por que as pessoas “descasam” facilmente?

Krom – Às vezes as pessoas não se separam por várias razões. Elas se separam porque uma questão é insuportável. Muitas vezes, o indivíduo não se divorcia porque deixou de gostar do outro, mas porque é impossível conviver com ele por causa de algum aspecto do companheiro, seja alcoolismo, traição ou violência. Viver junto implica em uma série de questões.

JC – Quais, por exemplo?

Krom – No caso do primeiro casamento, são algumas questões de negociação com as famílias de origem. Há necessidade de um certo espaço para que cada parceiro possa construir seu próprio relacionamento a dois. O “nós” na relação precisa ser cuidado. Relacionamentos são coisas vivas que precisam ser alimentado todos os dias. É muito interessante não perder o contato com o outro. Existem relacionamentos em que o casal não tem muito tempo e isto é complicado porque é necessário estar perto. O “estar como outro” significa estar no mesmo tom e com o mesmo passo. É como a idéia de dançar. A pessoa deve manter sua mão ligada ao outro e o olhar nos olhos do parceiro porque desta forma estará o acompanhado sempre.

JC – E como fazer isto?

Krom – Não existem receitas prontas. Cada casal deve criar alguns momentos em que possam ficar juntos. Como diz o cantor Ivan Lins, casamento significa casar-se todos os dias. A pessoa tem que estar conectada e atenta ao outro, mas não no sentido de vigilância. Muitas pessoas acreditam que o outro é responsável por sua felicidade, mas é a própria pessoa quem deve se fazer feliz e compartilhar sua alegria com o parceiro. É preciso lembrar que outro não é culpado por tudo o que acontece com a pessoa. Existem os problemas, mas se o casal estiver de mãos dadas - não atadas - pode enfrentar e superar obstáculos. Quando um escorrega, o parceiro segura e quando um não pode, se apoia no outro.

JC - Se o casamento é uma construção, quais são as bases que o sustentam?

Krom - A base da família e do relacionamento do casal é a cooperação. E o casamento deve ser um refúgio para o mundo externo. É interessante que o casal potencialize suas habilidades, que cada um seja fonte de incentivo para o outro. Mas a principal estrutura do relacionamento é a confiança e a lealdade.

JC – É por isto que muitos divórcios são motivados por traição ou deslealdade do parceiro?

Krom – A traição fere justamente uma das bases do relacionamento, que é a lealdade. Não é porque o outro traiu, mas ele não foi leal e verdadeiro. As crises no casamento, sejam motivadas por traições ou qualquer outra dificuldade, são oportunidades para se rever o casamento. Quando há uma crise é porque alguma coisa não vai bem. Se o casal consegue consertar, tudo bem, mas se isto não ocorre é muito complicado continuar porque geralmente é como um vidro: se um lado trinca, o outro também começa a trincar. Por outro lado, a crise também pode ser uma oportunidade para se rever os acordos do casamento.

JC – De que forma?

Krom – Os acordos funcionam como sustentação. E eles devem ser renegociados. Nós temos os acordos internos que nem sempre são falados. Por exemplo: o cônjuge cuida do outro e vice-versa; enquanto um trabalha o outro fica em casa cuidando das crianças. Mas estes acordos precisam ser renegociados de tempos em tempos porque as pessoas se modificam. Como os pais renegociam o tempo todo os acordos com os filhos, é interessante modificar também os acordos com seu parceiro.

JC – Qual é a influência dos filhos no casamento?

Krom – Os filhos representam um projeto de união muito importante. O relacionamento tem duas dimensões: a do “nós” e a individual. Os filhos podem fortalecer o casal, o que geralmente ocorre. Mas quando as pessoas têm filhos é importante que elas não percam a dimensão do relacionamento conjugal, do homem e da mulher e do par. É interessante que o casamento seja alimentado pela sedução, o conquistar o outro todos os dias. Ser capaz de estar seduzindo o outro porque um dos erros de uma pessoa é achar que ela conhece perfeitamente o outro. E é impossível conhecer alguém totalmente porque o ser humano vai mudando conforme o tempo passa. É muito interessante ter a capacidade de surpreender positivamente o outro e até de surpreender. É gostoso porque isto quebra a noção de que o parceiro sabe tudo sobre nós. A conquista diária é fundamental. Todos os dias é necessário estar atento ao outro, ao que faz o outro feliz. E um dos riscos do casamento é os parceiros esquecerem deles mesmos e serem apenas mãe e pai. É abrangente e impactante quando o casal tem muitos filhos porque as crianças “sugam” mesmo e se o casal deixa espaços vazios, elas entram mesmo; é natural que a criança queira toda a atenção para ela.

JC – E como estabelecer o limite entre o espaço do casal e dos filhos?

Krom – Aí entra a colocação de algumas fronteiras, por exemplo, os pais dizerem para os filhos que naquele momento estão namorando. Isto começa desde cedo e os filhos aprendem a respeitar o espaço dos pais como namorados. É importante nunca deixar de namorar o seu parceiro, seja com 15, 20, 40, ou 60 anos. Manter o namoro vivo é uma das receitas interessantes. É preciso se manter em sintonia, no mesmo tom e no mesmo passo, acompanhando o outro. As pessoas têm conflitos que precisam resolver individualmente e o parceiro deve respeitar isto, deixar que o parceiro tenha seu espaço porque há pessoas que “sufocam” o outro.

JC – Como agir em casos de separação ou morte do companheiro?

Krom – É importante não perder a capacidade de amar. Existem muitos amores e diversas formas de amar. Em relação ao luto, as pessoas costumam apenas lamentar, mas elas precisam agradecer o que viveram. A vida é um ciclo. A morte faz parte da vida e o ser humano precisa aprender a aceitá-la. O enlutamento é um processo de “deixar a pessoa ir”. Guardar as lembranças e deixar. Muitas coisas na vida a pessoa não esquece, mas “deixa de lado”. É como a traição. Se o indivíduo consegue entender ou “deixar de lado”, consegue viver com a pessoa. A alegria e a tristeza das pessoas só dependem delas próprias.