09 de julho de 2026
Articulistas

O Fernando errado


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Antes mesmo dos escândalos do governo Lula virem à tona, o escritor Adauto Novaes teve a idéia de realizar o ciclo de conferências “O silêncio dos intelectuais”. O objetivo seria entender a crise contemporânea que levou intelectuais a desenvolverem uma nova relação com a sociedade, bem diversa dos tempos engajados de Jean-Paul Sartre, André Malraux, Susan Sontag e tantos outros. Estaria a atual crise deixado os intelectuais brasileiros, muitos originários da esquerda, como o PT, ainda mais acuados para expressar idéias e opiniões?

A conclusão a que se chegou, embora não definitiva é de que o silêncio deveria ser interpretado como uma situação de “impotência”. Sabemos que o pensamento apenas não basta para enfrentar os desmandos da política. Toda essa política anti-ética e desonesta teria levado os intelectuais a uma situação de constrangimento. Paulo Sérgio Rouanet chegou a ressalvar: “mas se o papel do intelectual não pode ser tão grandioso quanto no passado, nem precisa ser tão humilde quanto aquele a que foi reduzido no presente. O intelectual não pode abrir mão do que constituiu a sua razão de ser: o universalismo que o induz a pensar e agir”.

Faço essas considerações para lamentar a morte de um intelectual que nunca silenciou - Fernando Gasparian, rico de família há várias gerações, intelectual educado em Oxford, cavalheiro e socialista. Morreu quase ao mesmo tempo em que os dois candidatos à Presidência se debatiam na TV. Lembro-me dele na redação de “Opinião”, jornal alternativo que havia fundado com o dinheiro da mansão vendida no Pacaembu. Em seguida veio “Argumento”. Enquanto os ricos ficavam mais ricos no Brasil sob a ditadura militar, Gasparian jogava para cima a fortuna do pai, rei da indústria têxtil, para defender os interesses do povo no seu semanário, onde reunia uma equipe com as melhores cabeças pensantes do País. Não para elaborar frases de efeito ou palavras de ordem à esquerda. Sim, para discutir as reformas de base e manter diálogos com quaisquer correntes ideológicas. Quis alertar para as transformações que ocorriam no mundo e o que deveria fazer o Brasil para sair da miséria e do atraso tecnológico diante da “sociedade em rede” que se formava. Foi deputado à Assembléia Constituinte e autor do dispositivo da Carta Magna que limitava em 12% ao ano os juros bancários, incluídas as taxas e outras despesas que os bancos pudessem inventar. Riram dele, mas hoje está mais que demonstrado - até o Lula sabe - que com os juros pornográficos atualmente praticados, jamais sairemos do lugar. “Mas, os juros são ditados pelo mercado!” É o raciocínio chão e rasteiro. Gasparian, o “armênio maluco”, tinha consciência disso. Lutou para introduzir a regra na Constituição, ciente de que jamais seria obedecida. Assim mesmo a “letra morta” ali estaria, enquanto não fosse subtraída da Carta, como um alerta aos dirigentes deste País.

Lamento que Deus, na sua infinita bondade tenha nos levado o Fernando errado. O Gasparian, com saúde, jamais guardaria silêncio numa hora dessas. É hora de criticarmos as práticas a partir das idéias, e as idéias a partir das práticas. O erro do PT foi valorizar uma prática sem ideais ou idéias. Lula está protegido por um fetiche impossível de ser penetrado. Caem os amigos, mas ele continua. Une-se a Jader Barbalho, e nada acontece. Alckmin abraça Garotinho e o mundo cai sobre sua cabeça.

Há muitos e muitos anos um intelectual não teve medo de pregar idéias para que os governantes a pusessem em prática. Disse, textualmente: “Vamos equilibrar o orçamento, proteger o tesouro, combater a usura e reduzir a burocracia. Caso contrário, afundaremos todos”. Ele se chamava Cícero. Viveu entre 106 e 42 antes de Cristo. Há mais de dois mil anos seu grito, embalde, desde então corre o infinitivo, como diria Castro Alves. A exemplo de Cícero, Fernando Gasparian jamais silenciou.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC