Brasília - Em depoimento ontem na sede da Polícia Federal (PF), em Brasília, o ex-ministro e ex-coordenador da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), negou conhecer a negociação feita por petistas para comprar e tornar público um dossiê contra tucanos. Ele disse que só soube do dossiê com a publicação do caso na imprensa (veja declarações no quadro ao lado).
Berzoini também afirmou desconhecer a participação, no episódio, de Hamilton Lacerda, ex-coordenador da campanha de Aloizio Mercadante para o governo de São Paulo.
Segundo a investigação da PF sobre o dossiê, Lacerda transportou pelo menos parte do pagamento de R$ 1,75 milhão destinado à compra dos papéis. Ele foi flagrado por câmeras do sistema de segurança do hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, no momento em que repassou uma mala preta a Gedimar Passos, outro ex-integrante da campanha de Lula envolvido.
O dinheiro, apreendido pela PF em 15 de setembro, seria entregue aos empresários Darci e Luiz Antônio Vedoin, chefes da máfia dos sanguessugas. Ao depor na PF em São Paulo, segundo o seu advogado Alberto Toron, Lacerda disse que usou a mala para transportar boletos de depósitos para contribuição de pessoas físicas destinadas a campanhas - e não dinheiro.
Também em entrevista à imprensa, Toron, em referência ao depoimento de seu cliente à PF, afirmou que, conforme Lacerda relatou aos policiais, o dossiê poderia ser utilizado nas campanhas de Lula e de outros petistas. Questionado sobre tal versão ontem, Berzoini afirmou não saber se transportar boletos era ou não atribuição de Lacerda.
Para a PF, Lacerda trabalha para proteger Mercadante. Berzoini atuaria na defesa de Lula. Ambos negam qualquer tipo de pagamento, pois, se isso fosse admitido, seria o sinal para se sentirem obrigados a revelar a origem do dinheiro.
Lorenzetti
Ainda conforme o depoimento, Berzoini afirmou ter contratado o petista Jorge Lorenzetti para fazer o trabalho de análise de risco da campanha de Lula. Disse também que, em dado momento, Lorenzetti pediu a ele a indicação de um jornalista com o qual pudesse trocar informações. Consta do depoimento que Berzoini, então, sugeriu a Lorenzetti que procurasse a assessoria de imprensa da campanha.
A troca de informações seria a busca de uma alternativa para tornar público o dossiê que envolveria políticos tucanos, principalmente José Serra, então adversário de Mercadante em São Paulo, no escândalo dos sanguessugas. Berzoini disse aos policiais que, quando o escândalo se tornou público, Lorenzetti o procurou. Desculpou-se por ter “extrapolado” a confiança que lhe fora depositada. Por fim, negou que a negociação com os Vedoin envolvesse dinheiro.
“Nem um fato novo foi apresentado que já não fosse de conhecimento da imprensa. Ele foi transparente e prestou todas as informações à polícia”, disse ontem o advogado de Berzoini, Fernando Tibúrcio Peña. Por conta do episódio do dossiê, Berzoini foi afastado da coordenação-geral da campanha de reeleição de Lula e da presidência do PT.
"Sandice"
Anteontem, no “Roda Viva”, Lula assumiu que o destino de Berzoini foi selado pelo dossiê. “Chamei o presidente do partido lá em casa e falei: “Olha, quero saber quem fez essa burrice’. (...) Ele me disse que não sabia. Falei: “Ricardo, você, como presidente do partido, tem obrigação de apresentar para a sociedade uma resposta’. E ele não fez. Eu o afastei da coordenação da campanha. (...) Se tivessem (os petistas envolvidos) assumido publicamente as razões pelas quais fizeram, quem deu o dinheiro, seria muito mais convincente para a sociedade e mais tranqüilo.