O final dos anos 60 e começo dos 70, com o general Médici na Presidência, ficou conhecido como os anos de chumbo. A censura rigorosa aos meios de comunicação estimulava a luta de resistência democrática. A sociedade começava a compreender que a ação dos militares não seria uma mera intervenção e conseqüente retorno aos quartéis como acontecera em ocasiões anteriores. Surgem, com o objetivo de driblar a censura, publicações chamadas de imprensa alternativa. Eram tablóides semanais ou mensais como Movimento, do jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, que circulou de 1975 a 1981. Fernando Gasparian, empresário forjado nas lutas estudantis nacionalistas dos anos 50, herdara de seu pai uma das maiores tecelagens do país, a América Fabril, 5 mil funcionários só no Rio de Janeiro, compunha entre os poucos industriais que defendiam as Reformas de Base propostas pelo então presidente João Goulart. Esse posicionamento tornou-o alvo de retaliações que levaram ao fechamento da América Fabril. Na iminência da prisão muda-se para Londres e ali conhece o historiador inglês, nascido no Egito, Eric Hobsbawm, que passa a ajudá-lo nos contatos com intelectuais renomados e simpáticos à luta democrática tupiniquim. Entusiasmado com os apoios resolve fundar um jornal alternativo. Nasce, então, em 1972, o jornal Opinião e depois a revista Alternativa. Compraria, ainda, mais tarde, a Editora Paz e Terra do seu amigo Ênio Silveira. Tanto as publicações quanto a editora prestaram inestimáveis serviços à causa da democracia no Brasil.
Conheci Gasparian em 84, numa reunião do PMDB em Brasília, apresentado por Ulysses Guimarães. Foi à Capital conversar com Ulysses sobre o desejo de candidatar-se a deputado federal pelo PMDB paulista. Quando saiu, Ulysses, em tom de admiração, disse que ali ia um homem de bem, patriota, nacionalista e democrata, que havia usado a maior parte de sua fortuna para sustentar um mínimo de liberdade de expressão a uma sociedade sufocada pela ditadura. Em inúmeros episódios da caminhada pela redemocratização do País estivemos juntos. Gasparian fez furor, quando deputado, com a emenda constitucional que fixava em 12% o valor máximo dos juros e despesas afins. Não deu ouvidos aos economistas, pois não os suportava, lutou e foi vitorioso (CF art.192, § 3º). O megainvestidor Naji Nahas, no final dos anos 80, foi responsabilizado pelo fechamento da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Gasparian lutou para que fosse instalada uma CPI sobre o caso, mas o número de CPIs já atingira o limite previsto pelo Regimento Interno. Ulysses, então presidente da Câmara, reuniu as lideranças que em vista da repercussão do caso resolveram por uma CPI extraordinária. Gasparian surpreendeu a todos quando, ao contrário de reivindicar a presidência da Comissão como era praxe, indicou o meu nome para tal função. Convivemos meses em torno da CPI que ao final serviu para nortear novas regulamentações a respeito do funcionamento do mercado de ações. Certa vez confessou-me o desejo de montar, em sua fazenda na divisa de Minas com Goiás, um retiro de leite tipo A. Coloquei-o em contato com técnicos da Secretaria de Agricultura do Estado que imaginavam querer o então deputado desenvolver apenas um hobby. Perguntado sobre a raça e a quantidade de cabeças, Gasparian foi direto: holandesas e 3.000. Pretendia tirar perto de 30 mil litros de leite/dia para abastecer Brasília que não era servida por aquele tipo de produto. Era um visionário... Um adorável visionário.
O derradeiro encontro que tive com Gasparian foi na TV Cultura, em 1996. Embora relacionado familiarmente com Fernando Henrique, presidente na ocasião, não perdoou o amigo: “Tidei, quando o Fernando (FHC) falou que era para esquecer o que ele tinha escrito, achei que era charme de acadêmico, mas não era. Ficou louco. É uma tragédia”. Fernando Gasparian morreu no último dia 9 de outubro, aos 76 anos, convicto de seus ideais. Acreditava no Brasil e o adorava. Um exemplo de patriota.
O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, foi deputado federal no período 1978/1992, foi secretário da Agricultura no período 1987/1988 e foi prefeito de Bauru no período 1993/1996