09 de julho de 2026
Internacional

Sean Penn protagoniza ‘Assassinato de Richard Nixon’

Por Márcio Senne de Moraes | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

“O Assassinato de Richard Nixon”, do estreante Niels Mueller, poderia ser um péssimo filme, e, ainda assim, a performance de Sean Penn no papel do perturbado protagonista Sam Bicke seria suficiente para valer o ingresso. Mas, além disso, o espectador ainda tem direito ao cuidadoso roteiro de Mueller e Kevin Kennedy, que demandou vasto trabalho de pesquisa, a uma direção criativa, mas sem excessos, e ao primoroso trabalho dos atores coadjuvantes, como o premiado Don Cheadle, o gerente do comovente “Hotel Ruanda”, e Jack Thompson, no papel do chefe de Bicke numa loja de móveis.

O filme, que estréia hoje no Cine’n’Fun e também já está nas locadoras, se baseia numa história pouco conhecida - mesmo nos EUA -, embora real. Em 1974, pouco antes do estridente desfecho do escândalo caso Watergate, que forçaria o presidente Nixon a deixar seu posto, Bicke está à beira do abismo. Homem apagado e marcado pelo que acredita ser as traições da vida e do capitalismo, ele decide atacar o mais poderoso dos mentirosos políticos da época: o presidente dos EUA.

Como tentaram Mark David Chapman (John Lennon) ou John Hinckley (Ronald Reagan) depois dele, Bicke quer deixar sua marca no mundo ao assassinar uma celebridade. Embora ele nunca tenha ido além do aeroporto de Baltimore-Washington, onde sua intenção era seqüestrar um avião para atacar a Casa Branca, a história de Bick - cujo nome recebe um “e” a mais no filme - resulta num trabalho tocante. Ninguém teria, contudo, lembrado o triste incidente ou buscado fazer um filme sobre ele se não fosse por três razões.

Primeiro, o método privilegiado por Bicke expõe uma impressionante similaridade com o 11 de Setembro, ocorrido 27 anos mais tarde. Segundo, Penn viu no papel de Bicke um trabalho de atuação que poderia aguçar seus mais profundos instintos. De fato, sua performance é excepcional e, em alguns momentos, supera sua participação em “Sobre Meninos e Lobos”.

Terceiro, mais de uma década depois de sua morte, a reputação de Nixon permanece tão ruim que existe pouco ou nenhum perigo de os espectadores o acharem mais simpático do que Bicke. E, como é um artista politizado, que já fez reportagens no Iraque e no Irã para o “San Francisco Chronicle”, Penn talvez tenha imaginado que o público pudesse ver um paralelo entre as mentiras de Nixon e as de outro republicano: Bush.

Fato é que os lamentos de Bicke sobre as agruras do capitalismo não soam piegas, e os claros excessos do sistema não parecem caricatos. Nada justifica a intenção do protagonista, mas o modo como sua descida ao inferno é apresentada explica por que sua mente atormentada chegou a tal ponto. E seu silencio é mais eloqüente que um grito desesperado.