São Paulo - O tom agressivo e a discussão sobre corrupção que marcaram o primeiro debate entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin foram substituídos anteontem, no segundo confronto entre os presidenciáveis, pela citação quase professoral de uma profusão de números a respeito de indicadores sociais e econômicos.
Estrela do encontro anterior, a corrupção virou coadjuvante e em vários momentos sumiu de cena. “Os números fluem na boca das pessoas com muita facilidade e cada um pode falar o número que quiser”, disse o presidente em suas considerações finais. Antes, porém, ele havia recorrido tanto a eles que em um momento agradeceu a Alckmin por lhe dar a oportunidade de repetir dados sobre a saúde em seu governo.
O debate no SBT teve quatro blocos. Dois deles foram abertos para que os candidatos perguntassem um ao outro sobre o tema que escolhessem. Alckmin, que no debate anterior enfatizara do início ao fim os escândalos do governo Lula - em particular a pergunta “de onde veio o dinheiro?”, do caso do dossiê -, escolheu duas vezes economia e duas vezes saúde como temas de suas questões. A atitude incisiva adotada pelo tucano no último debate também foi temperada. Ele tentou ser didático, falando várias vezes com “você aí de casa” e tentando frisar que ele e Lula eram candidatos “diferentes”.
O presidente, por sua vez, foi irônico em alguns momentos e disse que Alckmin não respondia às perguntas. Eixos do debate, a saúde e a economia viram os candidatos desfiarem um rosário de números: Lula tentando provar que o Brasil está melhor hoje do que antes, e Alckmin, o contrário. “A saúde vai muito mal, ela piorou no atual governo, nós retrocedemos”, disse o tucano. “Para mim não está bom, eu como médico tenho a obrigação de melhorar”, completou. “Não está bom para o Alckmin porque ele não usa a saúde pública. Estamos longe de ter a saúde pública que desejamos para nós e para nossos filhos, mas o que fizemos no nosso governo jamais foi feito neste País”, rebateu Lula, em meio a números de lado a lado.
O mesmo roteiro se repetiu na economia. Alckmin citou reportagem da revista britânica “The Economist” que mostra que o Brasil ocupava o último lugar entre os emergentes. Senha para Lula acusá-lo de “colonizado intelectualmente” e dizer que o Brasil só poderia ser comparado ao próprio Brasil. Lula salientou que havia criado as bases para crescer e que tinha conseguido aliar crescimento a distribuição de renda. “Ele acha que está bom o Brasil crescer 2%. Nós somos diferentes, a minha receita vai ser outra”, rebateu Alckmin.
Corrupção
O tema da corrupção praticamente só apareceu no primeiro bloco do programa. Alckmin, instado a fazer uma pergunta sobre o tema pelo sorteio, listou escândalos do governo Lula - caso Waldomiro Diniz, “mensalão”, o Land Rover recebido de presente pelo ex-secretário geral do PT Silvio Pereira- e terminou com a compra do dossiê, para insistir na pergunta sobre a origem do R$ 1,7 milhão apreendido.
“Trinta e quatro dias depois, a sociedade brasileira merece explicações.” “Essa campanha vai acabar sendo a campanha de uma nota só”, respondeu Lula, para então usar a sua resposta única para os questionamentos éticos: que se mais escândalos de corrupção surgiram, é porque o governo investiga como nunca antes.
O tucano aproveitou a deixa: “Primeiro, não é uma questão de uma nota só. São 1 milhão e 700 mil notas”. Enumerou os petistas e ex-petistas envolvidos no caso. Em seguida, a mediadora Ana Paula Padrão sorteou o tema “saúde” para Lula, dando o tom do debate. Alckmin só voltou a falar de corrupção em meio a uma discussão sobre corte de gastos - citou estudo segundo o qual o País gasta por ano US$ 3,5 bilhões com corrupção- e nas considerações finais, em uma só frase: “Sob o ponto de vista ético, um descalabro”.
O tema das privatizações, que o PT conseguiu impor à campanha, foi objeto de uma pergunta de Lula, que quis saber - "sem que a gente fique nervoso”- qual a visão de Alckmin sobre privatização. O tucano teceu elogios à privatização da telefonia e disse: “Não tem nenhum problema privatizar se for preciso. O que não pode é mentir”, para reafirmar que não vai privatizar Petrobras, Caixa Econômica, Banco do Brasil e Correios - em relação às duas últimas, já havia feito um aceno no início do debate, dizendo que são instituições sérias que foram maculadas por escândalos do PT.