Se todos os veículos automotores de Bauru consumissem ao mesmo tempo um litro de combustível cada, a atmosfera da cidade receberia uma carga de aproximadamente 4,170 bilhões de litros de ar poluído. A quantidade parece astronômica, mas pode ser explicada: para queimar um litro de gasolina, por exemplo, um motor de carro necessita de 28 mil litros de ar.
Como a cidade tem uma frota de 148.975 veículos, de acordo com estimativas do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran), basta multiplicar um número pelo outro e pronto, obtém-se a quantidade de poluição existente nos ares da cidade.
É claro que nada é tão simples assim. Diversos fatores precisariam ser levados com consideração, sobretudo tamanho, modelo e estado de conservação dos diversos tipos de motores em circulação. Um carro antigo ou mal conservado, por exemplo, emite mais gases venenosos que um automóvel zero quilômetro.
São tantas variáveis, que especialistas no assunto julgam ser impossível realizar um cálculo dessa natureza. “Um pequeno movimento no pedal do acelerador já altera a quantidade de gases gerada por um veículo”, explica o engenheiro mecânico Marcos Roberto Bórmio, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Em todo caso, a projeção não deixa de ser interessante, pois possibilita aos 153.364 motoristas bauruenses (dados do Detran) saberem em quanto cada um colabora para sujar a atmosfera da cidade. Se bem que os problemas relacionados ao grande fluxo de veículos vão além da poluição atmosférica.
O próprio ronco dos motores é capaz de causar danos consideráveis à população. A comerciante Neuza Ramos Falcão, que trabalha há 22 anos no cruzamento da rua Treze de Maio com a avenida Rodrigues Alves, perdeu parte significativa da audição devido ao convívio diário com o ruído dos veículos que trafegam pela região.
O avanço na quantidade de carros, motos, caminhões e ônibus também colabora para o crescimento da insegurança no trânsito de Bauru. Se o tamanho da frota saltou de 129.969, em 2004, para 148.975, este ano, o índice de desastres ocorridos na ruas da cidade também não ficou atrás.
Enquanto em 2004 a Polícia Militar (PM) registrou 13.948 acidentes, em 2005 os números pularam para 14.867. A quantidade de vítimas também cresceu, passando de 2.236, há dois anos, para 2.813, no ano passado. O problema é mais grave nas vias de maior movimento, sobretudo nos cruzamentos de grande avenidas Rodrigues Alves, Nações Unidas e Duque de Caxias.
Motoristas obrigados a percorrer grandes distâncias em espaço urbano sentem reflexos do trânsito conturbado de Bauru. O mototaxista Cássio Fabiano de Almeida chegou a cair de seu veículo num dia em que estava de folga. Ele trafegava pela rua Bernardino de Campos, na Vila Falcão, quando teve a preferencial cortada por um automóvel.
“O carro veio e me fechou. Não consegui controlar a moto e acabei caindo”, conta. Almeida, que não teve ferimentos graves no acidente, é mais uma das inúmeras vítimas da imprudência dos motoristas bauruenses.
A falta de respeito a regras mínimas, mas essenciais (dar seta antes de conversões, por exemplo), aborrece motoristas e preocupa os responsáveis pelo segurança do trânsito da cidade. Tanto que a PM realiza projetos em parceria com escolas públicas, empresas e universidades, na tentativa de conscientizar até aqueles que ainda não estão em idade de dirigir. “Na maioria das vezes, é mais fácil o adulto escutar um conselho do filho do que uma orientação nossa”, reconhece o sargento Aparecido Bento, da Base de Policiamento de Trânsito da PM.
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Rendimento
Considerada a principal causa para a emissão dos gases venenosos pelos carros na atmosfera, a queima incompleta de combustíveis é um problema quase impossível de ser resolvido. “Os motores a álcool e gasolina têm rendimento muito baixo, por isso nunca são capazes de realizar uma combustão completa”, explica Marcos Roberto Bormio, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
De acordo com ele, a única maneira de o problema não ocorrer seria um mecanismo que atingisse rendimento de 100%. “Nesse caso haveria queima total e nenhuma poluição seria liberada. Mas isso é uma situação impossível de ocorrer”, explica.
Segundo Bormio, mesmo carros novos e em bom estado têm dificuldades em apresentar alto rendimento. “Um carro zero quilômetro é capaz de atingir 30%, no máximo. Depois disso, quanto mais velho for o veículo, menor será o aproveitamento do energia gerada pelo motor”, conclui.