08 de julho de 2026
Ser

O repertório do bem-estar

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 11 min

“Quem canta seus males espanta”, diz o ditado popular que, não por acaso, se tornou item famoso no repertório de muitas pessoas. Em casa, ela pode ajudar a relaxar. No convívio social, serve como pano de fundo para a diversão ou, ainda, é a própria atração da festa. Além disto, estudos científicos já provaram que a música ajuda na recuperação de pacientes e contribui para o bem-estar emocional dos seres humanos.

A pianista e coordenadora do Coral Arte Viva de Bauru Sônia Maria Berriel Soares vai além e observa que a música aplaca a violência, diminui o estresse e torna as pessoas mais sensíveis. “Muitos podem não gostar de determinado tipo de música, mas não conheço um indivíduo que não goste de nenhuma música”, diz, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

De acordo com ela, qualquer pessoa pode cantar, basta treino e dedicação. Isto sem falar na paixão pela música, sentimento estampado em todos os cantos da casa de Sônia Berriel – como é conhecida na cidade e região. A começar pela sua família. Mãe de Olavo, 39 anos, e Maria Júlia, 34 anos, ela se orgulha em falar sobre os dois filhos, que são músicos amadores, e do marido, Jorge, dono de diversos sites de música erudita na Internet.

Sempre que é possível, os quatro se reúnem na sala, que “transpira” música. Além de instrumentos como o piano e violão, o ambiente é recheado de quadros e miniaturas de cantores famosos. Na parede, uma tela feita pela artista plástica Angelina Messemberg se destaca. “Ela pintou o Coral Arte Viva de Bauru depois de ver uma de nossas apresentações. As pessoas retratadas no quadro têm expressão e sentem o que estão cantando. O quadro têm música”, aponta.

Filha de um barítono e uma multinstrumentista, Sônia tem 64 anos, sendo quarenta deles dedicados à atividade musical. Nascida em Avaí, mora em Bauru há muitos anos. Começou a carreira ministrando aulas de piano e acompanhando aulas de dança e ginástica rítmica. No final da década de 60, foi chamada para reger um coral formado por universitários da Instituição Toledo de Ensino (ITE). Aceitou o convite e, desde então, fez da música um fator indispensável em sua vida. Fundou diversos corais em Bauru, entre eles o Arte Viva, que completou 31 anos de existência recentemente.

No bate-papo a seguir, Sônia aponta os benefícios proporcionados pela música, reforça a importância de cuidar corretamente da voz e formas de popularizar o canto coral. Confira os principais trechos.

Jornal da Cidade – Todos podem cantar?

Sônia Maria Berriel Soares – Sim. Não existem pessoas desafinadas, mas desentoadas. As pessoas cantam pela primeira vez no “Parabéns a Você”, famoso em todas as festas de aniversário. Vou citar como exemplo um indivíduo que, desde criança, canta em tom grave. Durante o “Parabéns...”, uma pessoa diz para ele que está desafinando ou que não está cantando de forma certa. Aí este indivíduo passa a não cantar muito, deixa de lado sua espontaneidade. Ele canta, mas está desentoado, ou seja, não teve um desenvolvimento da acuidade auditiva, que é ligada à emissão de voz. Porém, esta pessoa tem um concerto extraordinário e pode cantar da mesma forma que os outros. Para isto, precisa ser novamente preparada com aulas de percepção musical. O único empecilho para o indivíduo cantar é se ele tiver algum dano que comprometa o interior das pregas vocais, que são muito pequenas - têm pouco mais de um centímetro de tamanho e estão localizadas dentro da laringe, na região do pescoço. Há ainda pessoas que, devido ao mau uso da voz ou cantores que não cuidam ou fazem aquecimento vocal, podem comprometer a voz. No caso de pessoas que ingerem bebida alcóolica antes ou durante a apresentação, as pregas vocais podem se deteriorar, criando problemas de fendas e perda de um pouco a beleza da voz.

JC – Quais são os benefícios proporcionados pela música?

Sônia Berriel – Os benefícios são totais. A música aplaca a violência. Ela trabalha com o estresse e torna as pessoas sensíveis e emocionadas. Muitas pessoas podem não gostar de determinado tipo de música, mas não conheço um indivíduo que não goste de nenhuma música. E também não existe música boa nem ruim. Existe música bem feita e mal feita. Recentemente, estudos mais aprofundados mostram que cada ser humano tem uma inteligência musical. Ela pode ser desenvolvida e se tornar em um grande ganho para o desabrochar da personalidade do indivíduo.

JC – De que forma o coral pode colaborar para a saúde física e emocional do indivíduo?

Sônia Berriel - Sempre, no final de um ensaio, as pessoas comentam que estão mais descansadas. Como o instrumento musical se concentra na anatomia humana, começamos os ensaios com um relaxamento muscular de ombros e pescoço, além de treinar técnicas para aquecimento da laringe e pregas vocais. Depois de tudo isto, o grupo escolhe uma canção alegre e que seja do agrado de todos para cantar. No final, as pessoas saem alegres e favorecidas. A música traz saúde, alegria, bem-estar para as pessoas. Música é arte. Podemos fazê-la de forma amadora, mas imensamente bem feita.

JC – De que forma a música ajuda no desenvolvimento infantil?

Berriel – Vou citar como exemplo dois projetos que tive a oportunidade de realizar em parceria com a Prefeitura Municipal de Bauru denominados “Um Canto Em Cada Canto” e “O Canto Desta Cidade Sou Eu”, lembrando a música da Daniela Mercury. Estas atividades foram desenvolvidas na periferia da cidade e em bairros onde as crianças são mais estressadas, devido a tudo o que sofrem e vivenciam. No início do trabalho, percebi que as crianças não estavam cantando, mas sim gritando, como um grito que sai do fundo da alma. A voz infantil é sempre uma voz suave e deve ser trabalhada com suavidade. Depois de algum tempo de atividades, notei o desenvolvimento da personalidade, da disciplina e do amor destas crianças pela música porque, às vezes, elas só ouvem música comercial e não cantam canções folclóricas brasileiras ou que tenham a ver com o cotidiano infantil.

JC - Assim como os músicos, como os profissionais que utilizam muito a voz, como radialistas ou telefonistas, podem melhorar ou cuidar da voz?

Berriel – Jornalistas, locutores de rádio, telefonistas, professores e pessoas que trabalham o dia todo em ar refrigerado precisam cuidar da voz tomando muita água, pelo menos dois litros do líquido por dia. O ar-condicionado tira a umidade do ar e as pessoas que trabalham em salões amplos ou pequenos com esse ar ligado devem ter sempre uma garrafa de água para se hidratar e não ocorrer um ressecamento das pregas vocais. Além disto, é interessante que as pessoas cuidem da alimentação, comendo grãos, maçã com casca e mastigando bem os alimentos. A ingestão de gordura, carne ou alimentos pesados em excesso pode refletir bastante no ato de cantar, tanto é que todos os cantores, quando vão cantar, têm que estar com o estômago praticamente vazio por conta da respiração. O diafragma, se a pessoa estiver com estômago cheio, não pode fazer o movimento de respiração baixa ou abdominal, que os cantores fazem. Para cantar, não se usa a mesma respiração usada para falar e tomar água. Durante os ensaios, os músicos têm que estar sempre com uma garrafa de água em temperatura normal.

JC – O que é preciso para se formar um coral?

Berriel – A música vocal não precisa de um grande empate de capital financeiro. O Brasil é um país de terceiro mundo. Para montar uma orquestra, é necessário contratar um regente e ter capital para a aquisição de instrumentos. A música vocal não precisa de nenhum investimento maior. É necessário somente ter uma sala ou jardim para trabalhar com crianças, adolescentes ou adultos. Além disto, o regente precisa ter voz para fazer música com o grupo.

JC - O Arte Viva tem como característica mesclar canções eruditas, sacras e populares em seu repertório. De que forma isto contribui nas apresentações?

Berriel - O Coral Arte Viva já esteve em 15 Estados brasileiros e não tem preconceito com nenhum tipo de música. Buscamos desmitificar a música coral e atrair o público para as nossas apresentações. Seguimos a palavra de Milton Nascimento que diz que “todo artista tem de ir a onde o povo está”. Cantamos música erudita, sacra, internacional, MPB, de viola e raiz porque uma parte do público adora um determinado gênero e estilo musical; o mesmo ocorre com outro grupo da platéia.

JC – Existe preconceito do público em relação à música erudita? Como popularizá-la?

Berriel - Não existe preconceito, mas o não-conhecimento devido à falta de divulgação da música erudita. Muitas pessoas conhecem inúmeros temas eruditos que já se tornaram populares. Mas os concertos no Brasil, para a grande população, precisam ser didáticos. Uma criança, por exemplo, que assiste a apresentação de uma Orquestra de Câmara ou coral precisa ser informada do que está acontecendo. Se dissermos para a criança que determinado grupo canta com vozes de baixo, tenor e soprano, ela não irá entender nada. Mas se o coral apresentar uma música fácil, em tom grave, por exemplo, os baixos mostrarão de que maneira cantam e as crianças se alegram, batem palma e aprendem.

JC - A senhora lembra de algum fato ou história peculiar envolvendo alguma apresentação do coral, como por exemplo, alguém já desafinou?

Berriel - Já tive a oportunidade de reger o Coral Arte Viva com os integrantes emocionados, chorando com a perda de companheiros ao longos destes 30 anos. É um som que eu, que sou regente deles há 31 anos, desconhecia. Se a pessoa está emocionada sua voz não sai igual e o mesmo ocorre com a voz cantada. Ela pega a conotação do momento no qual estamos vivendo. Vou citar uma apresentação alegre realizada na praça central de Barcelona, em um fim de tarde de verão, com a presença do Consulado do Brasil. Nós cantamos a música “Bate forte o tambor”, que estava muito divulgada na Europa, e um “mar de braços” de todas as nacionalidades se alegraram conosco. O coral teve outros momentos marcantes. O grupo nasceu na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, em 1975, mas houve um momento triste quando nós fomos convidados a sair do prédio da secretaria da Fazenda. Fizemos uma reportagem no JC, onde contamos que estávamos sem-teto. E no dia seguinte recebemos dezenas de convites para ensaiarmos. Acabamos aceitando a Câmara Municipal de Bauru. Ensaiamos no salão do povo durante anos e anos.

JC - A senhora é pianista e sempre esteve ligada às artes. É uma herança familiar?

Berriel – Sim. Eu tenho músicos na família. Minha mãe tocava vários instrumentos musicais, como piano, violino e violão. Meu pai tinha uma voz de barítono extraordinária. Os dois se conheceram por meio da música e cantaram a vida inteira. Minha casa sempre foi “musical”. Tenho duas irmãs que tocam instrumentos e dois filhos que são promotores de Justiça e músicos amadores. O mais velho, Olavo, é arranjador e compositor. Meu marido, com quem está casada há 41 anos, não toca nenhum instrumento, mas tem vários sites na Internet somente com música erudita. E o meu neto Leonardo, de 10 meses, grita fininho e ajuda nossos ouvidos a fazer música.

JC – A senhora tem mais de quatro décadas de vida dedicadas à carreira musical. Como define a música?

Berriel – Música não é profissão. Música é paixão. A pessoa pode até trabalhar a música como profissão, mas se ela não tiver um amor “desusado”, pode, em algum momento da vida, deixar esta profissão e ir em busca de outra que proporcione mais rendimento financeiro. Música trabalha com o abstrato e não com o concreto, mexe com a emoção das pessoas.

JC – Qual é o lema de sua vida?

Berriel – Neste momento é procurar fazer as pessoas cada vez mais calmas, felizes e adequadas em um mundo onde há fome, miséria, desigualdades. Tenho 64 anos, dos quais mais 40 deles dedicados à música e ao canto coral. Meu objetivo é fazer da minha paixão, que é a música, um canal para atender as pessoas. É tão comum, em apresentações, ver pessoas derramando lágrimas. O que será que nós, eu e o coral, com nosso estudo e dedicação, proporcionamos neste determinado momento na vida da pessoa? Se eu tivesse uma varinha de condão, gostaria de mudar o mundo com apenas um toque e fazer com que as pessoas olhassem umas para as outras, que o “amar o próximo como a ti mesmo” fosse realmente uma verdade.