08 de julho de 2026
Articulistas

O boca de ouro


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Quando assisto a debates ou leio entrevistas com candidatos à presidência, me vem à mente o “Boca de Ouro”. Um personagem do teatro de Nelson Rodrigues levado ao cinema com Jece Valadão, no papel-título. Boca de Ouro é um bicheiro de subúrbio, machão. Um dia sentou-se na cadeira do dentista e ordenou: “Arranca todos!” O profissional recusou-se a extrair 32 dentes em excelente estado e somente cedeu sob ameaça de morte. O bicheiro substituiu-os todos por dentaduras de ouro maciço, provas da riqueza amealhada graças a uma bem sucedida carreira. Fruto da competência. A história do jogo do bicho na baixada fluminense se dividia em antes e depois do Boca. O mais marcante do personagem rodrigueano, no entanto, era sua maestria na arte de negar. Um estrategista de primeira, mesmo quando pego em flagrante. Defendia-se com tanta convicção que acabava convencendo a si mesmo.

Alertado pela amante que o marido os vira passar num táxi, Boca de Ouro recomenda: “Negue sempre. De pés juntos. Em qualquer circunstância”. Uma vez o marido, acompanhado do delegado, do escrivão, do repórter e fotógrafo de um jornal popular arrombou a porta do quarto de motel e fez o flagrante do Boca de Ouro com a mulher, na cama. A amante, bem instruída, com a maior veemência negou. E foi tão convincente que em meia hora o marido se rendia à versão de que não houvera adultério; o delegado também acreditou. Até o Boca acreditou...

Numa dessas entrevistas, indagado se não havia tido a curiosidade de perguntar a um dos seus amigos de esquema quem fora o autor do dossiêgate e de onde viera o dinheiro, Lula foi enfático: “Não perguntei e nem perguntarei”. O repórter insistiu: “Nem ao presidente do seu partido, seu ex-ministro Berzoini?” Disse que não perguntara. Dias depois, no “Roda Viva”, veio com a versão que cobrara o Berzoini: “Ele não explicou nada sobre aquela burrice do dossiê. Eu não sabia de nada. Fui traído e afastei os traidores”. Melhor do que isso, nem a amante do Boca...

Lula conseguiu convencer a maior parte do eleitorado que o governo é uma coisa e o PT é outra coisa. Seu segundo governo será “despetizado” como forma de evitar desastradas traquinagens de alguns aloprados. O arsenal de fraudes, trapaças e trapaceiros, já se esgotou. Insanos como Waldomiro Diniz, Zé Dirceu, Palloci e outros fizeram surgir o mensalão, as relações espúrias com empresários do bingo e do jogo do bicho, os sanguessugas, o valerioduto, o ongduto, o propinoduto, o desvio de cartilhas, o aceso à conta do caseiro na Caixa e tantos outros episódios escandalosos que caracterizaram a política brasileira. O centro de irradiação foi o Poder instalado há três anos e dez meses. Mas Lula não sabe de nada. A exemplo do Boca, “de todas as coisas que não sei, uma sobressai: a que jamais saberei”. Profundamente filosófico...

É incrível como um candidato é capaz de encantar pessoas, feras e até as pedras. Nisso lembra um pouco o mito de Orfeu. Mesmo depois das Bacantes separarem sua cabeça do corpo Orfeu continuou falando e cantando enquanto se afastava de Lesbos. Nosso Orfeu da Marisa Letícia, com toda a grande imprensa a exibir sua cabeça na bandeja, ainda consegue revestir sua campanha presidencial de uma mistificada embalagem ideológica. E o faz, desta feita, pelo método de infundir o medo (o mesmo utilizado na eleição passada pelos seus adversários, sem sucesso) naqueles que vêem a privatização como intrinsecamente má. Este é o objetivo da tática: infundir o medo e a incerteza. Produziu resultados, como se pode depreender das últimas pesquisas de aferição das tendências eleitorais.

Do outro lado, Alckmin só consegue colar imagens indesejadas. Pegou mal o apoio do casal Garotinho e perdeu votos. Mandou uma carta do PDT com o compromissos não-privatizantes. Somente conseguiu demonstrar tibieza e nem assim ganhou o apoio daquele partido.

Aos tucanos alquimistas do chuchu resta o consolo do Geraldo melhor que a encomenda. Atropelou o Serra à revelia dos caciques do PSDB; chegou ao segundo turno embora seus companheiros não acreditassem; é candidato forte a presidir o partido; e (alguém duvida?), voltará como candidato em 2010.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC