10 de julho de 2026
Cultura

O retorno de padre Marcelo

Diego Molina
| Tempo de leitura: 10 min

Depois de quatro anos sem lançar discos, o padre Marcelo Rossi está orgulhoso de seu retorno ao universo da música. “Minha Benção”, seu nono CD, já vendeu mais de 150 mil cópias em pouco mais de uma semana – em época de pirataria brava. A felicidade do religioso é constatar que o tempo em que esteve afastado dos programas de TV não apagou o interesse dos cristãos por sua mensagem.

Desde 1998, os discos do padre Marcelo venderam mais de 4 milhões de cópias. Nesses oito anos, ele lançou dois filmes e continuou a transmitir missas semanais pela Rede Globo e Rede Vida diretamente do Santuário Terço Bizantino, em Santo Amaro, zona Sul da Capital. No local, ele celebra cinco missas, às quintas, sábados e domingos – todas com lotação menor do que há alguns anos, mas que ainda somam mais de 70 mil pessoas semanalmente.

O intervalo entre seu último disco e “Minha Benção”, segundo o religioso, foi essencial para a seleção de um repertório de qualidade, fechado em 14 faixas. Ao contrário de seus primeiros CDs, o álbum não traz músicas dançantes ou que possibilitem coreografias, o que, segundo ele, foi uma opção consciente. Entre os destaques, estão “Nossa Senhora do Brasil”, com participação de Bruno & Marrone, “Cura-Me”, a infantil “O Primeiro Passo” e “Noites Traiçoeiras”. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que padre Marcelo Rossi deu por telefone ao JC Cultura.

Jornal da Cidade - O senhor volta a lançar um disco após quatro anos. Por que houve esse intervalo e como foi a seleção do repertório?

Padre Marcelo Rossi - Primeiro, é uma alegria voltar a gravar. Realizei meu sonho, que foi fazer um filme (“Maria, Mãe do Filho de Deus”) e depois segurar na mão do papa, e achei que minha missão tinha acabado. Evangelizei por todos os meios de comunicação, mas é lógico que Deus tem seus planos e não pode parar. Decidi parar um pouquinho e vou explicar o porquê. Esse novo disco é como o meu primeiro CD. Qualquer música que eu recebo passa por quatro crivos para eu poder chamá-la de “the best” (a melhor). Eu recebo muitos discos e ouço no carro, essa é a primeira prova: passar por mim e pelo Chicão (motorista). Passou por mim e por ele, testo a música nas missas com os fiéis que estão acostumados a ir ao Santuário – menos nas missas das senhoras e na da Globo, que é na TV, tem tempo, não pode atrapalhar. Fizeram um cálculo do número de fiéis: 70 mil pessoas passam pelo santuário semanalmente. É um público maravilhoso para testar as músicas. Testo na missa das 9h, que tem mais caravanas, pessoas que vão sem saber quais músicas entram e, se eles cantam e se emocionam, é porque a música é boa.

JC - E qual é o último crivo?

Padre Marcelo - O teste final é na missa dos jovens. Se pegar nessa missa, aí eu marco como “the best”. Se vou gravando discos todo ano, ficam poucas “the best”, apesar de recebermos muitas músicas boas. Como estou desde 2002 sem gravar – com exceção da trilha sonora de “Irmãos de Fé” – fui colhendo e consegui 20 “the best”. Tive que cortar essas músicas. Um detalhe é a facilidade (de conhecer as pessoas). Já gravei com o Zezé (di Camargo), já gravei com Chitãozinho & Xororó. Pensamos no Bruno, conversamos e não é que ele já tinha uma música para Nossa Senhora?

JC - Como foram as gravações no Santuário?

Padre Marcelo - Tem um detalhe importante. Não sabia que os tons dos outros CDs não estavam na minha voz. O Newton (D’Ávila, produtor) pegava o tom da banda, que não é o meu. Passamos dias tirando música por música até chegar ao meu tom. E a música com o Bruno e o Marrone, por coincidência, já que o tom que os sertanejos cantam é muito difícil, eu só cantei uma oitava abaixo e ficou perfeita, cantei à vontade. Ela é muito forte. Cantei na semana passada no Santuário e as pessoas cantavam com força, choravam, ela vai pegar. Lancei o CD no domingo passado no (programa do) Gugu. O primeiro CD vendeu 3,5 milhões de cópias, foi recorde. As pessoas têm disco de ouro hoje com 50 mil, por causa da invasão da pirataria. Com quatro anos fora do mercado, pedimos para fazer 150 mil CDs, porque escutamos o disco e nos emocionamos. A gravadora acatou. Na quarta-feira passada, 150 mil cópias já estavam esgotadas, não tem mais nas lojas. Eles já viram que, pela realidade, 250 mil cópias vão ser vendidas, com certeza. Mas a meta é 300 mil, o que seria um dos CDs mais vendidos. Não estou preocupado com isso, porque para mim, o CD é evangelização. Chegou a hora de voltar a me expor na TV com muito carinho, porque esse trabalho é importante. Tem uma música no CD que é “Noites Traiçoeiras”. Nos Estados Unidos, tive um encontro e quando coloquei essa música, foi uma choradeira. Ela mexe com as pessoas. Liguei até para a Hebe ontem (anteontem) porque, como vou estar com Bruno & Marrone no programa (da próxima semana), pedi: “Hebe, deixa eu cantar uma outra música, com o Dia de Finados chegando, essa música é tão linda, tenho certeza de que será uma noite abençoada”, e ela topou. O nome é estranho (risos), mas a música é linda.

JC - Falando do Dia de Finados, como será essa celebração especial?

Padre Marcelo - Vamos fazer uma missa de Finados, “Saudade Sim, Tristeza Não”, no Autódromo de Interlagos. Por sinal, um jornalista me questionou porque já coloquei 2 milhões de pessoas em Interlagos e agora serão 400 mil convites. Vou levar muitos artistas, KLB, Edson & Hudson, Rio Negro & Solimões, mas vamos fazer um convite-doação. A idéia era limitar mesmo. Podia fazer com troca de alimentos, mas imagina 400 mil quilos de alimentos, ia ser difícil. Temos três entidades diocesanas na comunidade de Santo Amaro que estão precisando, nada é para o Santuário. Não estamos cobrando a missa, é um ingresso-doação. Para podermos fazer nesse local, puseram um limite de 400 mil, pela segurança, e com o ingresso-doação, temos como controlar. O dinheiro vai ser todo revertido a essas três obras sociais. Os ingressos ainda não estão esgotados porque as pessoas deixam tudo para última hora (risos). Haverá pessoas designadas no local para entregar esses convites. É uma data que vale a pena celebrar, só tem saudade quem ama.

JC - O senhor comentou que esse era o momento para voltar à mídia, aos programas de TV. Olhando para o passado, para o estouro de suas músicas no Brasil todo, o senhor acha que a exposição, o uso de seu nome pelos programas em busca de audiência, foi negativo em algum aspecto? O senhor faria algo de forma diferente?

Padre Marcelo - A gente aprende algumas coisas. Essa parada foi muito importante. Jesus fazia isso, de parar, e todo ser humano precisa fazer também. Além da saudade, você precisa se reabastecer. Me arrependo de ter lançado meu segundo filme (“Irmãos de Fé”, de 2004), não por ele, mas hoje eu esperaria mais dois anos. Mal saí do primeiro filme (“Maria Mãe do Filho de Deus”, de 2003), que foi uma benção, fizemos o segundo, e errei. Me arrependo não do filme, que foi uma maravilha, mas de ter feito assim. As pessoas me acompanham pelo rádio, pela TV Globo, pela Rede Vida, e eu já tinha esse “público”, esses fiéis. Mas chega uma hora em que você tem que pescar novas pessoas e o CD para mim é um instrumento maravilhoso. Tenho na mão músicas maravilhosas e você vai a outros lugares, leva a mensagem e não perco minha identidade. Vou a todos os programas, todos que você possa imaginar, com uma causa, e depois paro. É uma missão. Vou usar uma comparação: me sinto como um barco à vela. O povo me obrigou, começou a me pedir para gravar de novo, eles pediam, falavam das músicas (que ele cantava nas missas), e eu sinto que o vento está forte, então é hora de evangelizar.

JC - Sentiu algum tipo de preconceito ou rejeição naquela época, quando começou a aparecer na mídia?

Padre Marcelo - Antes, havia na imprensa um certo ceticismo comigo, como que dizendo “O que esse padre quer? Padre cantor, popstar? O dinheiro, para onde vai?”. Graças a Deus, foi importante pedir: “Gente, espera um pouquinho, me dá cinco anos e vocês vão ver meu objetivo, vão poder ver os frutos”. As pessoas hoje já viram nosso trabalho, tenho essa credibilidade, nem me perguntam mais. Há um respeito muito grande, as pessoas compreendem minha missão: não sou padre cantor, eu sou padre. Através da música, do filme, da Internet, quero levar a palavra de Deus.

JC - Vemos com freqüência artistas que fazem muitos shows e têm um grande público, com essa rotina, o contato enorme com muita gente, e tudo isso os deixa exauridos e com a vontade, às vezes, de parar com tudo. O senhor já passou por isso?

Padre Marcelo - Você sabe que isso é um grande perigo. Eu tenho uma força diferente. Todo dia quando acordo de manhã, peço a Deus para me dar humildade. O que é ser humilde? É reconhecer os seus limites, e quando você reconhece seus limites, Deus pode operar. Isso foi muito importante para mim. Quem não tem espiritualidade ou cai nas drogas, ou em depressão profunda. O que você falou é verdade, a pessoa é sugada e perde sua liberdade. Em alguns momentos, não tem como fugir. Se você está almoçando em um restaurante, as pessoas vêm pedir uma benção e você precisa ser amor, ser carinho, eu ainda mais, como padre. Mas Deus me dá muita força. Posso falar que, em quase oito anos (desde o sucesso do primeiro CD), tenho essa experiência. Sofri muito, mas pelo cansaço, me atacou a região lombar, fui obrigado a fazer RPG, de 1999 para 2000. Depois, fui aprendendo. Por exemplo: estou lançado esse CD e vocês só vão me ver depois (em programas de TV) em 2008.

JC - E já tem planos para 2008?

Padre Marcelo - Quem sabe, futuramente, tenho o sonho de fazer um filme do livro “Médico de Almas e de Corpos”, que foi um best-seller e é fantástico. É lindo, conta a história de São Lucas, e isso seria um projeto. Muito lá para frente, para ser muito bem trabalhado, seria legal mostrar para as pessoas. Já mostrei (a história) de Maria e de Paulo, mas vou ter que sentir a hora de Deus. E tem o novo Santuário, que não vejo a hora de montá-lo. Temos o local, está tudo encaminhado. Eu não peço dinheiro, então a Rádio Globo vai fazer uma campanha junto com a Cruz de Malta, que é uma entidade filantrópica, com um 0500. Observando as obras do Santuário, que não podem parar, eles decidiram fazer a campanha e agora acredito que até ano que vem deve estar pronto. São 20 metros de pé-direito, vai ter uma torre de 46 metros, que poderá ser vista a um quilômetro. Dentro, a capacidade será de 25 mil pessoas. O terreno tem 30 mil metros quadrados, com 5 mil de construção do templo. Vamos poder colocar em torno de 100 mil pessoas tranqüilamente em grandes eventos. Vai ser muito especial.

JC - O senhor já recebeu convites ou propostas para assumir um programa ou atração como apresentador e transformar o padre Marcelo em um “artista”?

Padre Marcelo - Já, sim, mas descartei. Tenho uma parceria muito legal, de amizade, com a direção da Rede Globo, que transmite a missa, e também pela rádio. Você não imagina o que tem de audiência na Rádio Globo pelo Brasil, é muita gente. Houve várias sondagens, em especial de uma TV, mas eu não faço isso por dinheiro, para mim o importante é a palavra. Acho antiético da minha parte aceitar, porque tenho esse acordo com a Rede Globo.

• Serviço

Os convites para a celebração “Saudade Sim, Tristeza Não”, no dia 2 de novembro, no Autódromo de Interlagos, podem ser reservados pelo telefone (11) 5687-9133, no Santuário Terço Bizantino, em Santo Amaro, São Paulo.