Setembro. Choveu o mês inteirinho na região de Bauru, castigando principalmente a cabeceira do rio Batalha, a menina dos olhos dos pescadores da redondeza, provocando assim uma grande enchente, talvez a maior de todos os tempos.
O rio transbordou e suas águas barrentas avançaram pelas matas e invernadas da localidade, causando sérios prejuízos para alguns fazendeiros e sitiantes dali. A ansiedade dos pescadores para que as águas baixassem era muito grande.
Um dos fatores que fazem o rio Batalha ser tão procurado pelos pirangueiros é que possui ainda em suas margens vasta vegetação e muita pauleira em seu leito, amparando assim cardumes de várias espécies.
Uma semana após ter cessado a chuva, o rio ainda um pouco cheio e suas barrancas escorregadias, o Zé Birruguinha, não suportando mais a espera, resolveu mesmo assim dar uma pescadinha.
A água do rio ainda não estava na cor certa para a pesca de anzol, mas para o Zé, que sempre foi considerado como um dos maiores pescadores de Bauru e região, não ia ter muito problema.
Lá foi ele acompanhado de um companheiro, que também não deixava por menos, para seu rancho a beira do Batalha para pegar alguns peixinhos.
Na primeira jogada de linha feita pelo Birruguinha, antes mesmo que o anzol atingisse o fundo do poço, fisgou uma piapara das grandes. Por estar pescando com uma linha zero vinte, muito fina, teve bastante trabalho para tirá-la da água, isso só acontecendo com o auxílio do seu companheiro, usando um puçá.
Já com o peixe na mão, antes de colocá-lo no bornal, para surpresa sua e de seu amigo, perceberam que ele, talvez por ter passado alguns dias nadando na invernada, quando o rio cheio, trazia em seu dorso dois imensos carrapatos.
O Zé garante de pés juntos a veracidade desse acontecimento, mas quem duvidar que confirme com o seu colega de pescaria, que também no mesmo dia pegou uma tubarana com vários bernes nas costas.
Orlando Álvares de Araújo é pescador, contador de histórias e autor do livro “Estórias do Zé Birruguinha”, de onde foi retirado este texto.