Paris - O incêndio de três ônibus em subúrbios de Paris, entre a noite de anteontem e a madrugada de ontem, relançou o temor, por enquanto infundado, de que possa se repetir a revolta iniciada há um ano e que terminou, após três semanas, com a queima de 9.000 automóveis em 200 cidades francesas.
O ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, ordenou a prontidão da polícia, mesmo sem acreditar no perigo de uma nova onda de vandalismo. Ele se recusa a comentar publicamente o primeiro aniversário dos incidentes, já que isso, dizem seus assessores, estimularia violências isoladas.
Foi em 27 de outubro do ano passado que um adolescente, filho de imigrantes muçulmanos, morreu eletrocutado ao se esconder da polícia numa estação de eletricidade. Na mesma noite, jovens partiram para o quebra-quebra, sem um conjunto claro de reivindicações ou a existência de lideranças com as quais o governo pudesse dialogar.
Os incêndios de três ônibus desta semana não foram espontâneos. Os grupos que os atacaram estavam mascarados e traziam revólveres - ao contrário do ano passado, em que as armas eram pedras, porretes e bombas caseiras.
O primeiro veículo foi atacado no subúrbio de Nanterre, departamento de Hauts-de-Seine, onde o presidente do Conselho Geral (espécie de legislativo microrregional) é o próprio ministro Sarkozy. Os dois outros incidentes parecidos ocorreram nos subúrbios de Bagnolet e de Athis-Mons. O primeiro-ministro, Dominique de Villepin, prometeu “punição imediata e exemplar’’.
Desde o ano passado o governo destinou o equivalente a US$ 192 milhões a programas que baixassem a tensão nos subúrbios de população muçulmana. A mídia francesa contentou-se apenas em registrar de modo discreto os últimos incidentes.
O “Libération’’, que no ano passado fez uma cobertura extensiva, só publicava ontem, em sua edição on-line, um despacho da agência Reuters. O “Le Monde’’ relata estudo sobre o perfil dos envolvidos nos 16 únicos processos abertos para punir os atos de vandalismo de 2005.
Apenas um terço dos réus tinha antecedentes criminais. Eram todos homens, e 55% traziam nomes e sobrenomes árabes. Os réus de oito processos foram absolvidos. Na época, o governo anunciou que processaria e “expulsaria centenas’’ de arruaceiros envolvidos.