08 de julho de 2026
Cultura

Do Cafundó, Paulo Betti

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Sorocaba. A cidade testemunha dos milagres do Preto Velho João de Camargo, morto em 1942, foi a mesma onde nasceu o ator e diretor Paulo Betti. E foi neste universo de crendices que o garoto cresceu e para onde anos depois retornou como diretor no filme “Cafundó”, que estréia hoje em todos os cinemas de Bauru.

A história poderia ter o próprio Betti como protagonista, quando ainda crianças na fazenda em que seu avô trabalhava como meeiro para um fazendeiro negro lia e ouvia sobre a história desse curandeiro. “Eu via a Casa Grande da perspectiva da senzala e olhava o negro como superior”, disse o diretor durante a coletiva concedida à imprensa ontem à tarde no Alameda Quality Center, juntamente com um dos atores do elenco, Alexandre Rodrigues.

Mas Betti optou por uma narrativa mais clássica, onde é traçada a vida do negro João de Camargo desde quando é liberto da senzala até o momento em que, diante da aparição de um anjo, decide por se dedicar aos pobres e doentes. Mesmo sob esse enquadramento, muitas das histórias relatadas se confundem com as lembranças do próprio Betti. “O filme tem muito de mim. A própria vontade e paixão em filmar a vida de João de Camargo estão relacionadas com a minha história”, afirmou.

Devoto confesso do curandeiro, foram mais de 12 anos fomentando o sonho de levar às telas essa trajetória. Projeto antes individual e muitas vezes adiado por conta de outros compromissos profissionais e de falta de recursos. Em 1997, Betti fechou uma parceria com o também diretor Clóvis Bueno, responsável por “frear” sua carolice. “O bom é que ele não é tão devoto do personagem quanto eu, além de ter uma experiência no cinema como diretor de arte”, revelou Paulo Betti, pela primeira vez à frente de um longa.

Em 2003, as filmagens começaram em cidades históricas do Paraná e São Paulo, abrangendo uma área de 100 quilômetros. “95% das filmagens foram feitas em locações externas. Por isso escolhemos cidades próximas onde o patrimônio histórico fornecesse o ambiente da Sorocaba da época”, explicou Betti.

Depois de dois anos, o filme foi lançado e até agora conquistou milhares de espectadores. O sucesso pode ser explicado pela força da história e pela excelente atuação do elenco, mas não é só isso. Betti faz questão de lançar pessoalmente o longa em algumas cidades do Interior, como ocorreu em Bauru ontem, no projeto intitulado “Palco e Tela”.

“No Interior é muito difícil, pré-lançamentos. Então agora em Bauru, eu e o Alexandre, somos mais importantes do que o Tom Cruise e o Tom Hanks (risos), que nunca viriam à cidade lançar um filme deles. Por mais que não resulte em mais público, este corpo a corpo é indispensável”, colocou Betti. Agora é ouvir o que o filme tem a dizer...

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Hipocrisia

Para a surpresa dos descrentes, nem bem foi lançado e “Cafundó” conquistou 16 prêmios nacionais e internacionais. “Poucos acreditaram no projeto do filme, afinal foi meu primeiro trabalho como diretor de cinema e os temas do negro e da religião abordados no filme são complicados”, apontou.

O ator Alexandre Rodrigues, que interpreta o jovem Natalino, faz coro ao diretor. “A maioria das pessoas não sabe qual destino tiveram aqueles escravos. Eles simplesmente foram jogados na sociedade. Até hoje o caminho para os negros é difícil”, lamentou o ator, complementado pelo diretor: “O Brasil é muito hipócrita”.

A crítica ao País foi reforçada por Betti ao comentar a repercussão das recentes declarações feitas por ele sobre as denúncias de corrupção no governo Lula. “Eu não disse aquilo como apoio, eu só coloquei como uma constatação de que a política é suja infelizmente. O problema é que a maioria da imprensa usou minha fala de maneira hipócrita, porque estava criando uma narrativa e precisava de um personagem e, nessa, eu entrei de bandeja”, disse Betti.