11 de julho de 2026
Cultura

TIM Festival 2006 faz viagem no tempo

Por Da Redação | Com Agência Estado
| Tempo de leitura: 4 min

Eles acreditaram na revolução pela música, na expansão da consciência, nas viagens místicas, no amor desregrado e numa sociedade solidária. Isso tudo aconteceu há quase 40 anos, mas continuam acreditando em quase tudo isso. E eles estão chegando, todo mundo ao mesmo tempo agora, para o TIM Festival, que ocorre a partir hoje no Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória. A edição de Curitiba ficou para terça-feira.

Eles são: a cantora e poeta Patti Smith, 59 anos, eterna rainha da Blank Generation; o contrabaixista Charlie Haden, 69 anos, um dos inventores do free jazz, que percorria o mundo nos anos 60 com sua Liberation Music Orchestra, batalhando pelas causas da esquerda; Herbie Hancock, 66 anos, que fez a trilha sonora para um dos clássicos da contracultura, “Blow-Up”, de Michelangelo Antonioni.

No TIM Festival 2006, os que não são daquela época gostariam de ter sido. É o caso do texano Devendra Banhart, que imita o cantor Donovan e é comparado a totens do rock psicodélico, como Marc Bolan (T-Rex) e Syd Barrett (Pink Floyd). Ou então os garotos do TV on the Radio, que parecem velhos militantes dos Panteras Negras (grupo ativista negro dos anos 60), e revigoram a fleuma esquerdista em canções como “Dry Drunk Emperor”, “elogio” ao presidente Bush no qual cantam: “Eu era um amante/Antes dessa guerra.”

É o TIM Festival mais bicho-grilo de todos, mas não tem nada de depreciativo nessa constatação - é apenas uma nota comportamental. Patti, Haden e Hancock são alguns dos maiores artistas da história da música. Mas o maior festival de música do País, em sua quarta edição, não é só história e mística. Tem a blitzkrieg eletrônica do duo francês de música eletrônica Daft Punk, o hip hop pioneiro do Beastie Boys e a diversão escatológica do Bonde do Rolê.

Patti Smith anuncia que pretende cantar quase o repertório inteiro do disco “Horses”, de 1975, que tinha “Gloria”, “Birdland”, “Elegie”, “Free Money”. Seria mais que suficiente para consagrar essa edição do TIM Festival em sua faceta histórico-revolucionária: a diva da Blank Generation em carne, osso e cabelos desgrenhados fazendo seu disco mais famoso, assim como já vimos Brian Wilson executando os clássicos dos Beach Boys; o Kraftwerk arrepiando ao som de “Man Machine”; o hip hop pioneiro do Public Enemy e seu grito de guerra “Fight the Power”. Tudo isso está na base do moderno pop que se ouve hoje em dia no mundo inteiro.

Mas esta edição toda é um grande revival dos dias de discurso & revolução: do jazz dos pianistas Ahmad Jamal e Herbie Hancock e do contrabaixista Charlie Haden ao toque eletrônico francês do Daft Punk, que em 1993 detonou uma rebelião na música eletrônica européia, segundo um fã insuspeito: Stephen Dewaele, do grupo belga 2 Many DJ’s.

Sem contar com um garoto barbudo fissurado no folk alternativo dos anos 60 - e também naquela visualidade prenhe de psicodelismo: Devendra Banhart também veio das escolas de Artes Visuais (estudou no San Francisco Art Institute) e é fã extremado de Caetano Veloso - que entrou na programação na última hora -, e do cantor Donovan (aquele que foi considerado um dia “a resposta britânica a Bob Dylan”), Devendra é um neo-hippie que ainda acredita nas flores vencendo o canhão.

“Há algo na música de Banhart que desafia as palavras e a lógica, algo que te puxa para uma conexão profunda com o cosmos”, definiu a Harp Magazine.

O que caracteriza alguns músicos do festival também é a interdisciplinaridade - gostam de fazer arte, não importa o meio se é música ou grafite. É o caso do rock experimental de Tunde Adebimpe, do TV on the Radio, um intelectual do Brooklyn à moda antiga, graduado em cinema em Nova York e que também é pintor e produtor, etc., etc., etc.

O festival reúne influenciados e influenciadores. Patti Smith, por exemplo, é influência de centenas de cantoras, como Karen O, do Yeah Yeah Yeahs. Tudo seria coroado à perfeição se essa Maria Schneider que está vindo com sua orquestra fosse aquela que protagonizou o filme “O Último Tango em Paris”, com Marlon Brando. Calma, não é ela. Conta a lenda (e o Village Voice) que, um dia, um fotojornalista até chegou a pedir que essa Maria Schneider posasse para fotos dentro do box do banheiro. Espirituosa, a compositora retrucou: “Você não pediria isso para Aaron Copland”. Copland (1900-1990) foi um dos grandes compositores americanos autor de “Fanfare for the Common Man”.

A Maria Schneider Jazz Orchestra costuma se apresentar com 17 músicos e regente (a própria Maria). “Eu prefiro o termo orquestra, e não big band, para designar o meu conjunto”, esclarece Maria. “Big band tem uma conotação histórica, diretamente ligada ao jazz, e eu gosto de pensar que faço uma música orquestral que se vale da capacidade de improvisação do jazz, mas soa realmente como orquestra”, conceitua a compositora de Minnesota que, aos 25 anos, conheceu seu mestre, Gil Evans, com quem trabalhou e cuja influência é audível em seu trabalho.