10 de julho de 2026
Nacional

Falso padeiro mentiu ao depor sobre dinheiro para petista, diz PF

Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Pouso Alegre - A pessoa que anteontem prestou um depoimento à Polícia Federal (PF) de Minas Gerais sobre o caso do dossiê mentiu ao dizer que entregou dinheiro ao petista Hamilton Lacerda, em São Paulo. O depoente falsificou até sua identidade - apresentou-se como Aguinaldo Henrique Delino, mas é, na verdade, Luiz Armando Silvestre Ramos. A polícia pediu a prisão de Ramos.

O verdadeiro Aguinaldo Delino é um ex-funcionário de Ramos, morador de Cachoeira de Minas (MG), que perdeu os documentos há dois meses. Ele foi ouvido anteontem por um promotor de Justiça, a pedido da PF, e contou ter dado queixa à polícia sobre o sumiço dos documentos. Disse ainda não saber o motivo pelo qual Ramos usou seu nome no falso depoimento. “Na verdade (a suposta testemunha) não é Aguinaldo, ele se utiliza do nome de outra pessoa”, disse o delegado federal Daniel Daher, que cuida do caso em Pouso Alegre (MG).

A PF está à procura de Ramos desde o início da manhã de ontem. No depoimento à polícia e num vídeo gravado pelo “Jornal do Estado”, de Pouso Alegre, Ramos, apresentando-se como Aguinaldo, afirmou ter sido usado como “laranja” por Luiz Armando Silvestre Ramos - ele próprio, como se soube ontem.

Segundo seu relato, ele teria participado da entrega de R$ 250 mil a Hamilton Lacerda, um dos investigados no caso do dossiê contra tucanos. A reportagem esteve na casa de Ramos - até então identificado como Aguinaldo - às 10h30 de ontem. Segundo sua mulher e sua mãe, ele deixou o imóvel, na periferia de Pouso Alegre, às 6h, a pé, dizendo que iria “prestar um depoimento”.

Ao ser perguntado sobre o paradeiro de “Aguinaldo”, a família confirmava o nome. Uma hora depois, uma equipe da PF esteve na casa. Desde então, Ramos não foi encontrado pela polícia. A PF não havia divulgado, até o início da noite de ontem, os possíveis motivos que teriam levado Ramos a fraudar seu testemunho.

O dono do “Jornal do Estado”, advogado e empresário da construção civil Sebastião Foch Kersul, 62 anos, e o jornalista Fernando Lima, 28 anos, que fizeram a gravação do vídeo, e a jornalista Rosy Pantaleão, dona do site TV Uai e secretária-geral do PSDB no município, negaram motivação política para a entrevista.

“Nós fizemos a denúncia para a Polícia Federal e pedimos a presença deles para que apurassem o que estava acontecendo. Foi feito anteontem (terça-feira)”, disse Foch. Segundo o empresário, a pessoa que se apresentou como Aguinaldo foi à sede do jornal e disse que queria “fazer uma denúncia” porque temia por sua segurança. “Ele contou a história para nós e tomamos as devidas providências. Contratamos um advogado para ele e tudo mais, para que ele fosse protegido”, disse Foch.

O empresário disse não ser filiado a partido político. Foch e o jornalista foram ouvidos na noite de anteontem pela PF junto com Rosy Pantaleão. Ela afirmou que apenas enviou o vídeo, pela internet, para a PF de Mato Grosso, na última terça-feira. “Como é que eu iria armar uma coisa dessas? A cidade inteira sabe que eu sou do PSDB, não escondi isso do delegado”, disse Rosy.

“Laranja”

“Laranjas” acusados pela Polícia Federal de comprar dólares para a aquisição do dossiê disseram ontem, por meio de um representante, que seus nomes foram usados indevidamente. Eles não teriam assinado o documento de compra do dinheiro nem fornecido os CPFs à casa de câmbio Vicatur.

Esses “laranjas” são parentes de Levy Luiz da Silva Filho, que é cunhado da empresária Sirley da Silva Chaves, sócia da Vicatur. Cabe a ele explicar o que aconteceu, disse o representante, que não quis dar o nome. Ele falou à reportagem no início da tarde na travessa em que quase todos os “laranjas” moram, no bairro Fragoso, em Magé (cidade a 60 km do Rio). Veladamente, Silva Filho vem sendo apontado na travessa e imediações como responsável pelo envolvimento da família com o caso do dossiê contra políticos do PSDB.

O representante disse que Silva Filho não estava em casa ontem. Saíra para ir ao Rio. Ele é funcionário dos Correios, mas está licenciado por questões de saúde. Sua mulher, Lucinéia Gomes, também não estaria em casa.

O salão de beleza que ela tem no térreo do sobrado em que mora parte da família não funcionou ontem. Como reforço da tese de que foi Silva Filho, a pedido da cunhada sócia da Vicatur, quem obteve ou falsificou as assinaturas foi reforçada pelo fato de ele ter sido o único suspeito interrogado pelo delegado Diógenes Curado, que passou dois dias no Rio em investigações.

O interrogatório durou cerca de 90 minutos, na tarde de quarta-feira. O delegado não ouviu os demais “laranjas” que moram na casa e em frente, também ocupada por parentes de Silva Filho. Os pais de Silva Filho estão na lista de “laranjas”: o agricultor Levy Luiz da Silva e a dona de casa Demilde Gomes da Silva. O casal mora em um sítio em Pau Grande, localidade vizinha a Fragoso. Ontem, segundo empregados, o casal tinha ido ao médico, já que o “Vovô”, como é chamado na região, passara mal quando soube de seu envolvimento no caso.

O sítio Rancho Alegre passou recentemente por reforma. O muro foi elevado, a casa, pintada, e o telhado, recuperado. A obra foi no primeiro semestre. Também na rua da Cruzada (a travessa em que moram Silva Filho e parte de seus parentes), houve melhorias nos imóveis. Os dois sobrados ocupados pela família destoam dos imóveis vizinhos, pois foram reformados nos últimos meses. As casas em volta são bastante pobres. Na parte de trás do sobrado do cabeleireiro moram Levy, a mulher Lucinéia e a enteada Glauce. As duas não estão na lista “de laranjas”.

Na frente, vive Marinete, cunhada de Silva Filho. Do outro lado da rua, vivem Uheliton Marcelo Gomes e Marilcinéia Gomes, também cunhados do suspeito. Silva Filho também tem vínculos familiares com os “laranjas” de Ouro Preto (MG). Ele é pai de Viviane Gomes da Silva e Lidiane Gomes da Silva, Sua ex-mulher, Maria Gomes de Aquino, também é “laranja”.