08 de julho de 2026
Nacional

Controladores ameaçam greve branca

Por Andreza Matais e Lívia Marra | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - Ainda sob efeito do maior acidente aéreo do País, controladores de tráfego aéreo se reuniram ontem em Brasília, em sigilo, para discutir as dificuldades do setor e definir uma forma de pressionar o governo a atender a reivindicação por melhores salários, menor carga horária e a contratação de mais profissionais.

A maioria dos controladores é militar, por isso estão proibidos por lei de fazer greve. Mas, segundo apurou a reportagem com alguns dos participantes, não está descartada uma “greve branca”, mobilização que pode ser desde o atraso proposital dos vôos até a paralisação dos civis que trabalham no setor.

O encontro - que contou com cerca de 60 controladores de tráfego aéreo - foi realizado de forma discreta. A preocupação de não serem flagrados em “assembléia” ficou evidente com o local e horário escolhido para a reunião. A conversa ocorreu no Parque da Cidade, um local praticamente deserto pela manhã em dias de semana. Os participantes evitaram a imprensa sob o argumento de que não poderiam falar “ainda” sobre o que discutiram. Também tiveram o cuidado de deixar os uniformes nos carros para não serem identificados. Ao menos três participantes disseram à reportagem que a hipótese de greve dos civis ou de uma “operação padrão” ser colocada em prática foi discutida.

A “operação” consistiria no atraso dos vôos para demonstrar a insatisfação com o trabalho, já que não são todos que podem participar da paralisação. Na manhã de ontem, ao menos 32 aeronaves com destino a São Paulo, Cuiabá, Campo Grande e à região Sul do País decolaram do aeroporto de Brasília com atrasos de uma hora e meia, em média.

Segundo a Infraero (estatal que administra aeroportos), os problemas começaram por volta das 8h25. Aeronaves com outros destinos tiveram atrasos de dez minutos e, a partir das 10h42, todas as decolagens passaram a ocorrer com um intervalo de cinco minutos.

A assessoria da Aeronáutica informou que os atrasos foram conseqüência do excesso do tráfego aéreo, o que obrigou as aeronaves em solo aguardar um maior espaçamento para decolar. Contratações As normas internacionais determinam que cada operador de tráfego aéreo deve controlar, no máximo, 14 aeronaves no mesmo instante. O excesso de jatinhos e de aviões pequenos vem provocando atrasos de 30 minutos a duas horas nos pousos e decolagens nos aeroportos de Congonhas e de Brasília, nos últimos dias, o que levou o governo a se reunir anteontem para discutir o assunto.

Ontem, o ministro da Defesa, Waldir Pires, confirmou que novos controladores de tráfego devem ser contratados, diante da grande demanda de aeronaves que operam em todo o país. Ele evitou admitir, no entanto, que o atual número de controladores seja insuficiente para acompanhar os vôos. Outra medida é a transferência, nos próximos dias, de controladores de outras regiões do País para reforçar o setor em Brasília.

Afastamento

Após a queda do Boeing da Gol, no dia 29 do mês passado, oito controladores de tráfego foram afastados para as investigações de possível falha operacional. Foi o maior acidente aéreo do país, que resultou na morte dos 154 ocupantes do vôo 1907.

Na próxima semana, a Polícia Federal (PF) deve ouvir, em local reservado, os controladores e supervisores que trabalhavam no dia do acidente, em Brasília. O delegado Renato Sayão, que investiga o caso pela PF, também quer ouvir controladores de São José dos Campos (91 km a nordeste da Capital), cidade de onde decolou o jato Legacy, também envolvido no acidente.

Trabalho

Sobre as novas contratações, um dos participantes da reunião de ontem demonstrou que a medida não atende aos que já estão no cargo. Outro participante, que também preferiu não ter o nome revelado, reclamou da carga horária, considerada elevada. Colocados sob suspeita nas investigações da queda do avião da Gol, os controladores reclamaram do estresse a que são submetidos. Um deles lembrou um colega que sofreu infarto na última quinta-feira, enquanto trabalhava no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais (Grande Curitiba).

Os controladores trabalham ao menos 18 dias por mês com plantões de oito a nove horas. Cada controlador deveria trabalhar duas horas e descansar duas, o que, na prática, dificilmente ocorre, afirmam. A pressão aumenta devido ao regime rígido imposto pela hierarquia militar e o medo de punições. O salário de um controlador é de R$ 1.600,00, em média, mais adicionais. Um deles, o alimentação, é de R$ 36,00 - o equivalente a R$ 3,60 por dez dias.