A manicure bauruense de 31 anos, Luciana Francischini, têm três filhos, trabalha em média 8 horas por dia e quando chega em casa tem que arrumar toda a bagunça e ainda cuidar dos filhos e do marido. Ela se enquadra no crescente rol de mulheres brasileiras que fazem tripla jornada e não estão efetivamente satisfeitas com a condição. Segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), 68% das 16.768 mulheres que o órgão entrevistou em nove regiões do país consideram difícil conciliar o trabalho, a maternidade e casamento.
Luciana é uma delas. “É muito estafante. Tem muita coisa para fazer, durante o dia todo. Comida, roupa para passar, casa para faxinar, filho para dar atenção, marido para dar carinho. Tem dia que não consigo dar conta”, revela a manicure, que faz jornada tripla há dez anos e passa por tratamento para se recuperar de uma depressão. “Infelizmente esta rotina não é saudável. Mas por enquanto não temos outra opção”, completa.
Ela acorda todos os dias às 5h50, desperta o marido e o filho mais velho, de 10 anos, dá banho no do meio, de 5 anos, o leva até a creche (onde ele passa o dia todo) e finalmente vai ao trabalho, onde chega às 7h50, carregando no colo a caçula, de 7 meses. “Confesso que as atividades domésticas são as que menos me atraem. Na maioria das vezes, sinto o trabalho como um lugar para espairecer e conhecer outras pessoas. Mas se tivesse condições, deixaria meu trabalho para dedicar mais tempo à minha família”, revela.
A rotina agitada traz reflexos na parte física, segundo Luciana. “Não dá nem tempo da gente se cuidar. Nos doamos completamente para os outros e nos esquecemos da gente”, afirma a manicure, que pretende se mudar, no próximo ano, para Santa Catarina a procura de uma melhor qualidade de vida. “Em Bauru a situação está difícil. Vivemos numa completa rotina e com três filhos não temos condição realizarmos as atividades que gostaríamos”, completa.
Jornada quádrupla
Se Luciana não se sente atraída em realizar os afazeres domésticos quando chega em casa, Nadir Lopes de Aguiar, de 50 anos, tem motivos de sobra ter a mesma sensação. Ela trabalha como empregada doméstica há 30 anos e, no retorno ao lar, depois do serviço, precisa repetir a maioria das atividades realizadas durante o trabalho. “Eu divido tudo. Um dia lavo roupa, noutro limpo a cozinha, e por aí vai. Assim não fica tão repetitivo”, diz.
Segundo Nadir, que trabalha com carteira assinada há apenas 4 anos, o marido aposentado ajuda em algumas atividades. “De vez em quando ele esquenta a comida ou lava a louça. Mas é só isso”, afirma. “É cansativo, mas como não tenho outra opção, tenho que conciliar”, alega a doméstica, que acorda todos os dias às 5h30 e que, nas suas contas, precisará trabalhar durante mais 10 anos para poder se aposentar.