O rei foi visitar o sábio monge Paulinus. Admirado com sua biblioteca, o monarca exclamou: “Caro monge, que inveja! Você tem o privilégio de saborear a divina sabedoria através de tantas obras literárias.” O monge sorrindo disse: “Majestade, o senhor está enganado!” Abraçando o rei, o monge o conduziu para o estábulo do mosteiro e mostrou um monge concentrado em seus afazeres. “Repare bem, majestade, este monge não simplesmente trabalha, mas ele faz do seu trabalho uma oração. Do seu esforço depende toda a sobrevivência de uma comunidade. Desta consciência surge a verdadeira divina sabedoria!”
Por muitos séculos se passou a errônea interpretação de que seguir os passos de Jesus Cristo seria assumir um caminho de resignação, de submissão à condição da vida. O mundo é um mar de lágrimas e a nossa missão significa suportar o nosso sofrimento, o que se costumou chamar de “cruz”. Esta falsa interpretação da mensagem de Jesus fez com que grandes filósofos como, Marx, Nietzsche ou Foucault, compreendessem o Cristianismo como uma expressão dos fracos ou um instrumento de alienação e manipulação. Porém, se deixarmos a superficialidade e mergulharmos no contexto dos Evangelhos, encontraremos uma mensagem extremamente revolucionária e altamente exigente.
Seguir realmente Jesus Cristo é um caminho para os fortes e assumir os seus valores significa vivenciar um processo de desalienação, de encontro com sua realidade e condição humana. Resignação e submissão não fazem parte da mensagem jesuânica e, muito menos, pertence a ela um discurso contra o poder. Pelo contrário, o verbo se fez carne para alertar o ser humano do poder que a condição humana possui. O ser humano é filho de Deus e como tal deve ser tratado com dignidade e, ao mesmo tempo, possui dentro de si uma potencialidade infinita. A mensagem jesuânica revela a potencialidade no estágio superior da obra de Deus: o ser humano. Este possui o poder em suas mãos de fazer deste nosso universo um paraíso ou um inferno.
A dicotomia que encontramos nos Evangelhos, no que diz respeito à mensagem de Jesus e à questão do poder, não é a dicotomia entre servir e exercer poder, mas justamente entre poder e vaidade. O “poder”, muitas vezes nos Evangelhos, criticado por Jesus é aquele que possui a vaidade, o prazer individual como objetivo último. Para Jesus este, na verdade, não é o verdadeiro poder. O conceito de poder de Jesus não é o exercício de coerção, da força sobre alguma coisa ou pessoa, mas o desenvolvimento das potencialidades. O poder possui seu início na postura de engrandecer a vida, o dom divino oferecido por Deus a todos os seres humanos, e tem sua realização no desenvolvimento das potencialidades que possuímos e o seu objetivo na disposição delas para o bem comum, para a felicidade de todos.
Neste sentido que podemos compreender a frase de Jesus: “Aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos” (Mc. 10, 43-45). A frase precisa ser dialeticamente compreendida. No sentido de Jesus, nós só podemos servir realmente se formos livres e só poderemos ser livres se tivermos poder. Ninguém pode servir sem possuir poder e liberdade. Servir sob coerção não é o serviço no sentido jesuânico da palavra. Servir é um ato livre e espontâneo e só pode ser bem realizado a partir do momento que acordamos para o sentido da vida e desenvolvemos nossas faculdades, o que significa, poder.
Gandhi resume a poesia sagrada dos hindus, o “Bagavad-Gita”, com a seguinte frase: “Aquele que renuncia à ação decai; aquele que renuncia à recompensa pela ação se eleva”. Justamente neste pensamento está o sentido do poder na mensagem de Jesus Cristo. Jesus não está interessado na recompensa e sim na ação. Muitas pessoas religiosas procuram fazer o bem em busca de conquistar o céu, a salvação, ou uma recompensa para o pós-morte.
Na verdade, pessoas que agem assim possuem uma ética capitalista, utilitarista e hipócrita. Quem segue Jesus Cristo faz o bem porque simplesmente é bom fazê-lo. Independentemente da recompensa, e se houver uma recompensa, o sentido da ação para Jesus está na realização da vida, no fazer algo de significativo, na disposição de nossas potencialidades para o bem-viver de todos. Nesta perspectiva, o ser humano alcança o poder porque desenvolve suas faculdades e o exerce em sua correta direção, ou seja, se torna um auxílio para que todas as pessoas à sua volta possam sentir o prazer de viver. Se possuímos a vaidade como o impulso de nossas ações, geramos através destas o desrespeito, a insensibilidade, a corrupção e uma falsa felicidade individual.