A luta contra a miséria tem dupla dimensão - a emergencial e a estrutural. A articulação entre essas duas dimensões é complexa e cheia de astúcias... Atuar o emergencial sem considerar o estrutural é contribuir para perpetuar a miséria. Propor o estrutural sem atuar no emergencial é praticar o cinismo de curto prazo, em nome da filantropia de longo prazo. Quando um país chega à situação do Brasil e tem um terço da população na pobreza absoluta, metade desse terço na indigência, a questão fica ainda mais dramática. Na verdade, se trata de dar um peso muito grande ao emergencial (comida para quem tem fome aqui e agora), ao mesmo tempo em que se deve atacar as questões estruturais: retomada do crescimento, combate à inflação, geração de emprego, reformas da terra, da política industrial, educacional, tecnológica e, particularmente, reforma e democratização do Estado.
A luta contra a miséria é também e essencialmente uma questão ética e política. Ética porque a miséria não cai do céu como um fenômeno natural, como se fosse um vírus que ataca determinadas sociedades do terceiro mundo. Ela é produzida por uma sociedade num determinado tempo e por grupos dirigentes com nome e apelido que, até prova em contrário, têm consciência do que fazem...
A pobreza no Brasil veio de longe, junto com os colonizadores, desenvolveu-se com as oligarquias locais e se agravou com as chamadas elites dominantes atuais: os grandes proprietários de terra, oligopólios industriais, comerciais, financeiros nacionais e internacionais... Desenvolveu-se também com a cumplicidade das chamadas classes médias que, espremidas entre senhores e escravos, não vacilou em cair para cima. E também com a resignação de uma grande parcela de oprimidos que buscou se acomodar à exclusão, temendo as conseqüências da revolta... No Brasil de hoje trata-se efetivamente de combater a miséria, voltar a crescer, redefinir o desenvolvimento sem exclusão, sem a inflação - que nada mais é do que redistribuição perversa da renda contra os que vivem de salário.
Por isso, é fundamental pensar a curto e no longo prazo, na produção e não na especulação, na ciência e na tecnologia que busquem gerar empregos, aumentar a produtividade e ampliar a qualidade das relações de trabalho. É fundamental voltar a pensar e repensar na educação, na cultura e no próprio sentido da vida de todos nós, mas, para isso, é indispensável matar a fome de quem tem fome e atender à urgência de quem não consegue mais sobreviver como gente...
João Álvares - delegado regional da Associação Paulista de Imprensa