O Jardim Tangarás ainda pode estar sendo contaminado por chumbo. As 314 crianças que apresentaram nível elevado do metal na corrente sangüínea, após serem contaminadas em 2002 por partículas de chumbo lançadas no ar pela empresa de baterias Ajax, passarão por nova análise. Caso o resultado seja de estabilidade ou de elevação na quantidade do metal no organismo, a neuropediatra Niura Ribeiro Badula, coordenadora do Projeto Chumbo, não descarta a possibilidade de o bairro ter novos focos de contaminação.
“Se por acaso, nessa outra coleta, tivermos crianças que ainda mantêm o nível alto, uma das coisas que devem ser investigadas é esta”, ressalta. Extra-oficialmente, comenta-se que poderiam existir montadoras de baterias clandestinas, que estariam causando poluição.
A coleta de sangue para exame foi feita há 15 dias e o resultado deve sair dentro das próximas semanas. Segundo Badula, a análise anterior, realizada há cerca de três meses, detectou que nas 14 crianças que tinham nível superior a 25 microgramas de chumbo por decilitro de sangue – o que é considerado altamente prejudicial à saúde – a taxa do metal não havia recuado.
No entanto, a neuropediatra explica que esse resultado pode não significar uma dificuldade na contenção do chumbo no paciente.
“Há uma maneira individual de reação de cada organismo. Pode ser que eles apenas demoraram um pouco mais que as outras crianças”, acrescenta. Ela frisa que nenhum paciente apresentou aumento na taxa de chumbo no sangue, apenas estabilidade e redução.
De acordo com Badula, o chumbo é eliminado aos poucos do organismo. Segundo ela, as crianças que apresentaram nível de chumbo abaixo de 25 microgramas por decilitro de sangue, passam até hoje por acompanhamento médico, porém não precisam de medicamentos. Apenas àquelas que tiveram taxa superior a 25 microgramas foram internadas e tratadas com remédio.
“Em 2002, analisamos o sangue de 890 crianças. Dessas, 314 tinham o nível acima de dez microgramas. Desse total, mais de dez apresentavam taxa de chumbo acima de 25. Foram feitas todas as medidas necessárias e o índice desses pacientes diminuiu muito. Hoje, são pouquíssimas as crianças que têm o nível (de chumbo) elevado”, comenta.
A neuropediatra também disse que o bairro tem passado por tratamento ambiental para reduzir a contaminação do metal no solo e nas casas. A Ajax desativou totalmente a fábrica em 2002 e neste ano removeu inclusive os escombros para aterro sanitário adequado.
Conseqüências
Segundo Badula, o chumbo é um metal extremamente nocivo à saúde humana. Além de causar anemia ao paciente, pode comprometer os sistemas renal e gastro-intestinal, causando diarréia, dores abdominais e vômitos. O sistema nervoso também pode ser afetado. Nesse caso, a pessoa contaminada está sujeita a sofrer crises de epilepsia, dores de cabeça, além de alterações no sono, comportamento, podendo, inclusive, refletir na aprendizagem da criança.
“O chumbo pode ficar anos retido no organismo, principalmente nos ossos e dentes. Não temos condições de dosar isso. Mas, caso o paciente passe por uma cirurgia ou tenha uma fratura, o metal pode ser liberado para a corrente sangüínea e, dessa forma, a pessoa volta a ter os sintomas”, explica Badula.