Na reta final da campanha para o segundo turno da eleição presidencial, os analistas políticos já davam como favas contadas a realização de um “terceiro turno”, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse reeleito. A série de escândalos envolvendo membros do PT e do governo federal não atingiu Lula, como a oposição gostaria que atingisse, e ele terá sua segunda chance como presidente.
No entanto, mesmo sem o “terceiro turno”, Lula terá que juntar os cacos do País, que se dividiu na segunda parte da campanha eleitoral. Para o jornalista, consultor de marketing político e professor da Universidade de São Paulo (USP) Gaudêncio Torquato, o grande desafio do presidente reeleito é justamente enfrentar essa divisão e governar para todos. Ele lembra também que essa divisão está ligada ao discurso feito por Lula durante a campanha. “Ele (Lula) está diante de um País profundamente dividido, amargurado, muito até pelo próprio discurso dele. O presidente precisa, urgentemente, resgatar a comunhão das esperanças perdidas, conclamar classes e grupos a acreditar que teremos, sim, um amanhã melhor que o hoje. Não há maneira mais torpe de servir à Pátria do que pregar a desunião de seus filhos”, salientou.
De acordo com Torquato, o presidente Lula vai começar o novo governo sendo cobrado pela oposição, da mesma forma como vinha sendo antes e durante a campanha, mas a tendência é que haja aproximação entre os partidos no decorrer do segundo mandato. “Não podemos terminar uma eleição e começar outra. É preciso que ocorra uma integração de esforços para se chegar a um consenso. É possível que, já no meio do mandato, exista um entendimento entre oposição e governo”, frisou
Divisão
Enquanto o entendimento não chega, caberá ao presidente Lula tentar desfazer a divisão que ajudou a construir durante o processo eleitoral. A luta de classes, que se não foi propagada intensamente, teve presença marcante na campanha eleitoral quando o petista acusava seu oponente de ser o candidato das “elites”, enquanto se dava o papel de “pai dos pobres”.
Para o consultor, o fato de Lula afirmar, mais de uma vez, que a elite paulista odeia o resto do País e que a oposição só olha para o Sul e o Sudeste, não contribui em nada para a construção de uma Pátria forte, indivisível, e de uma coletividade nacional que anseia por harmonia e solidariedade.
Gaudêncio Torquato alerta ainda que o Brasil não tem costume de aceitar conflitos entre as pessoas, independentemente da classe social à qual pertençam. “O caráter nacional repele conflitos que envolvam gentes. Prefere impregnar-se da seiva de confraternização. Disseminar ódio entre classes, espalhar que regiões discriminam outras e usar o boato como forma de cooptação eleitoral são pérfidas maquinações de um vale-tudo que se esperava eliminado da política. A desgastada luta de classes morreu e está sepultada no cemitério do socialismo revolucionário. Não havia motivo para ressuscitá-la”, comentou.
Metas
Além do desafio de unir o País, Lula deve encontrar mais dificuldades na área econômica, principalmente no que se refere ao crescimento, que tem sido baixo nos últimos anos. Torquato ressalta a necessidade de manter a meta de domínio da inflação e da economia estável. Contudo, o País precisa expandir o crescimento, aumentar a oferta de empregos e exigir contrapartidas viáveis para os programas assistencialistas. “Ser isso não for feito, corremos o risco de continuar a ver o Bolsa-Família como instrumento de manutenção da miséria, em vez de mecanismo de promoção social”, salientou.
Outro ponto bastante polêmico no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva é a carga tributária. O consultor alerta que a reforma tributária precisa ser feita com urgência, para que o número de contribuintes aumente, mas pagando bem menos do que paga atualmente. “O presidente precisa dar um basta na escalada de impostos fazendo mais gente pagar, mas pagar menos”, disse.
Para Torquato, as metas de crescimento da economia só serão possíveis se houver uma reestruturação geral no Estado, com o enxugamento da estrutura e a eliminação das “ervas daninhas” e dos “quadros incompetentes”. Segundo ele, Lula deve aproveitar a idéia da oposição e diminuir o número de ministérios de 35 para 20, o que dará maior agilidade ao governo.