08 de julho de 2026
Internacional

Árabes criarão projetos nucleares

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Londres - A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) foi informada ontem que seis países árabes decidiram, quase simultaneamente, desenvolver programas nucleares.

O documento com essa revelação foi obtido pelo jornal “Times”, de Londres, que aponta como candidatos à corrida tecnológica a Argélia, Egito, Marrocos, Arábia Saudita, Tunísia e Emirados Árabes Unidos.

A agência, com sede em Viena, funciona dentro das Nações Unidas para questões de não-proliferação. Ela foi informada de que os seis Estados pretendem construir usinas termonucleares para a produção de eletricidade. Não recai sobre eles a suspeita imediata de pretender militarizar o programa ou se engajar na construção da bomba.

Mesmo assim, Richard Beeston, editor de diplomacia no jornal britânico e autor da reportagem, afirma que essa intenção tem ver com o fracasso dos ocidentais em impedir que o Irã atingisse domínio tecnológico que o capacitaria a explodir um artefato.

Os países árabes do Oriente Médio e da África do Norte sinalizam que pretendem, mesmo que de forma defensiva, dotar-se também da mesma capacitação tecnológica. O Tratado de Não-Proliferação permite que qualquer país utilize energia nuclear com finalidade pacífica, desde que abra as instalações a inspeções.

O “Times”, porém, diz que a súbita corrida de tantos países ao mesmo tempo levanta a suspeita de que pode haver um esforço de se construir uma bomba árabe.

Tomihiro Taniguch, vice-diretor-geral da AIEA, afirmou ao semanário “Middle East Economic Digest” que Egito, Marrocos, Argélia e Arábia Saudita canalizariam a energia gerada pelos reatores, “em princípio”, para projetos de dessalinizar da água do mar.

Esse grupo chegou a manter contatos com técnicos da agência para se informar sobre o tipo de reator mais apropriado para a dessalinização. Mas Mark Fitzpatrick, especialista em proliferação nuclear no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), traz para a reportagem do “Times” um complemento do raciocínio.

Acredita que esses países árabes procuram, ao terem acesso simultâneo à tecnologia, construir uma barreira de segurança contra o Irã. Fitzpatrick afirmou ainda que, “caso o Irã não tivesse atingido sua atual capacitação na área nuclear, não estaríamos assistindo a essa corrida”.

Reviravolta

O jornal britânico diz que o anúncio feito pelos seis países à AIEA representa uma reviravolta na política até agora observada no mundo árabe, que consistia em manter o Oriente Médio desnuclearizado. Israel é o único país da região a ter um programa nuclear com fins militares, possuindo supostamente algo em torno der 200 ogivas em estado operacional.

A intenção anterior de manter a região desnuclearizada era também um instrumento de pressão para que Israel abrisse mão de seu arsenal. O Egito e os Estados norte-africanos podem argumentar que precisam de energia barata e segura para a expansão de suas economias e para o conforto de suas crescentes populações.

Veio em seguida o caso da Coréia do Norte, que testou sua primeira bomba em 9 de outubro. “Ela provou que até um país com recursos limitados pode construir um artefato nuclear e usá-lo como instrumento de chantagem contra a comunidade internacional”.

Há entre o Irã e os seis países árabes uma diferença fundamental, diz o jornal. Eles atuam de boa fé, enquanto o regime iraniano desenvolveu um programa clandestino por duas décadas, segundo um grupo de dissidentes.

Será fundamental identificar agora se os seis países árabes pretendem importar combustível de um dos grandes fornecedores ou se querem enriquecer seu próprio urânio, o que criaria tensões semelhantes às que hoje envolvem o Irã e a Coréia do Norte.