09 de julho de 2026
Internacional

Pleito na Nicarágua põe EUA e Chávez em mais uma disputa

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Manágua - Um novo round da disputa ideológica em curso na América Latina entre EUA e Venezuela acontece hoje, na eleição presidencial na Nicarágua.

O favorito é o ex-presidente Daniel Ortega, 60 anos, líder sandinista que foi o grande inimigo dos americanos nos anos 80. Ele governou entre 1979 e 1990, primeiro como líder da junta que derrubou o ditador Anastacio Somoza e, a partir de 1985, quando venceu as primeiras eleições convocadas por ele.

Desde 1990, Ortega concorreu três vezes ao cargo e foi derrotado em todas. Há boa chance de que desta vez consiga - basta que, no primeiro turno, obtenha 35% dos votos e 5 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado. Ele aparece com 34% nas últimas pesquisas.

Ortega é amigo do presidente venezuelano Hugo Chávez, que tem facilitado a venda de petróleo a prefeitos sandinistas e é acusado de interferir na campanha.

Como costuma acontecer nas eleições nicaragüenses, os americanos têm feito ameaças ao país caso a vitória de Ortega se confirme. O candidato mais simpático aos EUA, o conservador Eduardo Montealegre, tem 25% nas pesquisas. A atenção que a eleição desperta é inversamente proporcional ao tamanho e riqueza do país.

A Nicarágua tem 5,5 milhões de habitantes, menos que o Rio de Janeiro, e seu PIB é de US$ 5 bilhões, metade da economia boliviana. Mas o país foi palco de um importante confronto dos últimos anos da Guerra Fria. Enquanto os sandinistas recebiam apoio de Cuba, os EUA patrocinavam guerrilheiros anti-sandinistas, os “contras”.

Inicialmente, os “contras” receberam ajuda da ditadura argentina e da CIA. Durante o governo de Ronald Reagan, dinheiro obtido com a venda ilegal de armas para o Irã ajudou a patrocinar os “contras”, que mergulharam a Nicarágua em uma guerra civil que durou de 1980 a 1989, deixando 60 mil mortos e 150 mil refugiados.

Tudo pelo social

O período pós-sandinista já teve três presidentes: Violeta Chamorro, Arnoldo Alemán e o atual, Enrique Bolaños. Mas nenhum conseguiu resolver os maiores problemas do país. Os nove anos de guerra civil e os estragos do furacão Mitch, em 1998, só pioraram a situação. A renda per capita é similar à boliviana e o analfabetismo é de 32%, uma das mais altas taxas do continente.

Apesar da estabilização da economia nos últimos anos, poucos progressos são sentidos pela grande maioria dos nicaragüenses. “O fracasso da direita e das políticas neoliberais nos últimos 16 anos deram uma nova oportunidade ao Ortega”, disse a historiadora Norma Hernández Sanchez, professora da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua, eleitora de Ortega.

“Ele (Ortega) dá prioridade à agenda social, a mais negligenciada. Ele aprendeu com o passado, se aproximou de empresários, da direita, e dialoga muito mais. E os EUA não deixaram Ortega governar”, diz, referindo-se ao embargo econômico decretado na época pelo governo americano.

O candidato favorito promete manter o tratado de livre comércio que o país, como seus vizinhos da América Central, assinou com os EUA em 2005. Diz que pretende atrair investimentos e respeitar a propriedade privada. E que não quer problemas com os EUA. Por sua vez, a ação americana também diminuiu.

“Desta vez, a intromissão ficou limitada às tentativas da embaixada americana de reconciliar a direita nicaragüense, que chega dividida ao pleito e por isso pode perder'”, diz o economista Rodolfo Delgado Moreno, diretor do Instituto de Estudos Nicaragüenses.

“Os republicanos estão com tantos problemas em casa que não tiveram tempo para atuar mais aqui.”