Como falar sobre sexo com os filhos? Este questionamento, com certeza, faz parte do cotidiano de grande parte das famílias brasileiras. A resposta, porém, nem sempre atende às expectativas dos pais e dos adolescentes. “O mais importante para os pais não é dar informação, mas formação. E isto significa não ter que ficar dando explicação, mas ouvir o que o filho pensa a respeito, opinar e ensinar os valores que a família preza sobre o assunto”, aponta a psicóloga e consultora educacional paulista Rosely Sayão.
Com mais de 30 anos de experiência na área e autora de diversos livros, entre eles “Sexo: Prazer em Conhecê-lo” (editora Artes e Ofícios) e “Sexo é Sexo” (Cia. das Letras), Rosely Sayão é colunista do caderno Equilíbrio, da Folha de São Paulo. Além disto, presta consultoria em empresas e escolas, como o colégio Seta, em Bauru, onde esteve recentemente ministrando uma palestra para pais e professores sobre educação de crianças e adolescentes.
Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade, ela avalia que os pais devem ser uma bússola que oriente uma direção aos filhos. “Na hora que atingirem a maturidade, se os adolescentes sabem onde é o norte, podem ir para qualquer outra direção. O problema é quando a família não dá esta direção. Aí eles ficam rodando em círculos”, diz. Estes e outros temas, como liberdade de escolha, influência da mídia e a questão de limites, são abordados no bate-papo a seguir.
Jornal da Cidade - Como os pais devem falar com os filhos sobre sexo?
Rosely Sayão – Depende da idade. Hoje há uma grande confusão. A criança faz muitas perguntas sobre tudo, a respeito de sexo, vida ou morte, e os pais recorrem aos detalhes mais científicos e biológicos e enchem as respostas de detalhes, quando na verdade o que o filho quer saber são outras coisas.
JC – Quais, por exemplo?
Rosely – A criança quer saber o que determinado assunto tem a ver com ela e com os pais. Por exemplo, ela pergunta para o adulto: “O que é que tem na barriga daquela mulher?”. É desta forma que ela consegue enxergar a mulher grávida. E se ela pergunta é porque já sabe o que tem lá, ou seja, ela só faz a pergunta para começar o assunto e saber como é que o bebê foi parar lá. A criança pode não saber a resposta correta ou fantasiar, mas dificilmente pergunta algo que não sabe.
JC – E nesta hora que a criança pergunta sobre a gravidez da mulher, o que os pais devem dizer?
Rosely – Não precisam explicar nada. Para a criança pequena a melhor coisa é responder exatamente aquilo que ela quer saber porque senão os pais correm o risco de ir à frente dela ou ficar muito atrás. Então se ela perguntar: “O que tem na barriga da mulher?” Os pais devem dizer apenas: “Um bebê.”
JC – E se a criança for além e perguntar detalhes, como por exemplo, de que forma ele foi gerado?
Rosely – Basta dizer: “Mais tarde você vai entender”. É a melhor maneira de responder para uma criança com menos de 6 anos por que qualquer explicação que o adulto dê neste sentido, para ela, não fará muita diferença. Vou citar um exemplo: muitos pais utilizam o recurso da sementinha, falam que a sementinha do papai e a da mamãe se juntaram. Uma vez um menino disse: “Então vai nascer uma árvore na barriga daquela mulher”. Os adultos esquecem que o pensamento da criança nesta faixa etária é absolutamente direto, ela enxerga a metáfora de maneira direta.
JC – E a partir dos 6 anos, como os pais devem agir?
Rosely – A partir dos 6 anos, geralmente, a criança não se interessa muito e quando isto ocorre, ela tenta buscar as respostas sozinha ou com os próprios colegas. E na adolescência, menos ainda. O mais importante para os pais não é dar informação, mas formação. E isto significa não ter que ficar dando explicação, mas ouvir o que o filho pensa a respeito, opinar, ensinar os valores que a família preza sobre o assunto, esta deve ser a prática da família. A parte biológica os filhos aprendem na escola, nas aulas de biologia. Com os colegas, eles vêem a parte de sacanagem; isto é inevitável.
JC – Os filhos estão conversando mais sobre sexualidade com os pais? O que eles querem saber?
Rosely – Esta tem sido uma característica da juventude de hoje de poder chegar e falar sobre sua intimidade com os pais. Isto tem sido muito estimulado pelos pais, que consideram este comportamento um benefício, mas creio que não é. A capacidade do jovem de ter seus segredos e saber preservar sua intimidade demonstra maturidade. Quando eles precisam contar para os pais, desabafar e até ter autorização para algumas coisas, isto pode ser indício de imaturidade. E como o sexo é coisa para adultos, se o adolescente precisa tanto da aprovação do pai diria que ele ainda não está preparado. Os adolescentes falam de temas mais ligados ao aspecto emocional. São discussões a respeito dos valores que determinado assunto tem para a vida porque eles são pressionados pela mídia, que em geral diz que o sexo tem um grande valor. Mas os pais são as pessoas que os adolescentes mais confiam e influenciam em seus pensamentos deles. Em segundo lugar, vêm os professores, mas nós damos um peso grande à mídia. O que os pais podem oferecer aos filhos são valores. Eu insisto nisto.
JC – Quais valores não deveriam ser vendidos pela mídia?
Rosely – Depende da perspectiva familiar. Cada família tem um corpo de valores. Uma família pode achar correto determinado assunto e a outra não. E a obrigação da família que não acha adequado é dizer para o filho que, embora determinado assunto exista, ele não fará parte, não autoriza ou não é importante para sua família. É este comportamento que dá a identidade familiar, no sentido de tradição.
JC – De que forma este valores contribuem para o desenvolvimento dos adolescentes?
Rosely – Os adolescentes precisam destes valores para que mais tarde possam saber o que querem ser. Eles não precisam ser o que os pais ensinam, mas precisam saber para depois decidir. Os pais funcionam mais ou menos como uma bússola, que aponta sempre uma mesma direção, eles são o norte de cada família. Enquanto os filhos estiverem sob responsabilidade dos pais, eles têm que ir para o norte porque na hora que atingirem a maturidade, se sabem onde é o norte, podem ir para qualquer outra direção. O problema é quando a família não dá esta direção. Aí os adolescentes ficam rodando em círculos.
JC – As adolescentes vêem o sexo de maneira romantizada?
Rosely – Acho que não podemos universalizar isto ainda porque atualmente existem diferenças. Hoje eu não consigo dizer o adolescente brasileiro, mas sim os adolescentes brasileiros, porque eles são muito diferentes entre si. Mas não acredito que as meninas tenham uma visão romantizada. Na busca de uma eqüidade, elas estão vendo o sexo de maneira muito mais parecida que os meninos. Isto não significa que tenha acabado o preconceito maior em relação à mulher, ele continua, mas com outra aparência.
JC –Mudou a concepção que os adolescentes têm sobre o sexo?
Rosely - Não mudou muita coisa, o que existe atualmente é um “verniz” que dá a impressão para os jovens de que eles são mais livres, mas pessoalmente eu não acredito nisto. Para o jovem de 40 ou 50 anos atrás, era proibido falar e fazer. Hoje o jovem é obrigado a falar e fazer. Então, entre proibir e obrigar, não há tanta diferença. A pressão social é igual.
JC – E quais são as conseqüências disto para o jovem?
Rosely – No mínimo, falta de liberdade de escolha.
JC – Neste sentido, como os pais e a escola podem ajudar?
Rosely – De um modo muito mais amplo, não apenas neste assunto mas em outros, os pais devem criar adolescentes mais críticos, que possam olhar para o mundo e pensar: “Por que será que eles estão dizendo que eu devo gostar disto?”. O ideal seria incentivá-los a fazer uma análise reflexiva da realidade e não simplesmente se entregar a ela. E isto pode ser feito pela família em conjunto com a escola, mas cada um a seu modo, por que são instituições com funções bem diferentes. Quando a integração é no sentido de um fazer como o outro, a escola perde seu objetivo original. Algumas escolas se orgulham em dizer que são a segunda família do aluno, mas família basta uma. O aluno vai para a escola exatamente para se separar um pouco de sua família, para olhar, para poder analisá-la também com um olhar crítico.
JC – Os pais devem permitir que seu filho adolescente durma com a namorada em casa? Por quê?
Rosely – É uma atitude muito inconseqüente dos pais. O jovem pensa em seu momento atual, no agora, e em como irá resolver seu problema hoje, mas o papel dos pais é pensar no futuro. Quando eles dizem: “Prefiro que faça aqui e não em outro lugar”, estão pensando no agora e aí, na perspectiva de se preparar para o futuro, os filhos ficam órfãos de pai e mãe. O adolescente tem de aprender a superar as próprias batalhas. Se ele quer muito, acha um jeito. Se ele não achar um jeito, tem de esperar um pouco. O papel dos pais não é ajudar os filhos a resolver seus problemas hoje, mas prepará-los para que eles enfrentem melhor as dificuldades que terão amanhã.
JC – Mas isto não é tão simples.
Rosely – Nem um pouco. É mais complexo do que os pais imaginam, mas mais simples do que eles pensam.
JC – Existem algumas dicas para os pais?
Rosely – Não saberia apontar dicas, mas posso citar algumas situações. Há pouco tempo saiu uma matéria com adolescentes que nunca tinham andando de ônibus urbano em São Paulo. E é interessante porque eles têm medo de andar de ônibus, acham desconfortável. Então são jovens de 13 a 17 anos que têm medo de andar de ônibus, mas não têm medo de experimentar drogas ou de sair de uma festa onde os pais acham que eles estão e ir para outra no meio da madrugada. A posição dos pais de tentar resolver os problemas do filho hoje está criando para eles uma visão de mundo muito irreal. Outro exemplo simples: uma criança de 9 ou 10 anos, que começa uma vida mais social e é convidada para ir a uma festa de aniversário, por exemplo. Para o filho é muito simples, ele chega em casa e diz para o pai irá na festa de aniversário de fulano e pede para a mãe comprar o presente. Aí ela vai, usa seu dinheiro, compra o presente, leva seu filho para festa e depois vai buscar. Então a única preocupação da criança é o prazer da festa. Ela não percebe que há um trabalho anterior e posterior. Que não se trata, aos 9 e 10 anos, de ir sozinho, mas começar a pensar nisto. No mínimo, ir junto com a mãe comprar o pressente, escolher e contribuir com sua mesada. Desta forma os pais dão uma maior noção da realidade.
JC – Em relação aos limites, como os pais devem impô-los sem invadir a privacidade dos filhos?
Rosely – Na verdade, os limites começam a entrar na vida da criança à revelia dos pais. Por exemplo, a criança nasce e ela quer mamar, mas a mãe está no banheiro. Neste momento ela já se defronta com um limite, ou seja, não adianta querer, existe uma realidade que se interpõe. Para falar a verdade, acho esta história de limites uma grande bobagem.
JC – Por quê?
Rosely – Depende da maneira como as pessoas encaram. Mais importante do que ter limites é a criança ter adultos responsáveis por sua educação. O resto é a vida. A vida tem limites, a começar pela própria morte. Mas saber como não invadir a privacidade dos filhos é um problema sério porque, para ter privacidade, primeiro o filho precisa aprender o que é privacidade. E hoje os pais não têm ensinado isto. Parece que há uma confusão geral a respeito do que cabe no convívio social e o que diz respeito à privacidade. E isto não é apenas nas famílias, mas para a sociedade como um todo. Depois do ‘Big Brother’, qualquer privacidade é pública.
JC – Os pais devem monitorar o tempo que os filhos passam na Internet?
Rosely –Os pais devem começar antes, não deixar os filhos muito tempo sozinhos. Nas palestras em São Paulo, dou um exemplo que o público entende bem. Pergunto para eles: “Vocês deixariam seu filho adolescente, de até 15 anos, sozinho, na Praça da Sé?”. E eles respondem: “Não, isto é loucura.” Mas a Internet é isto, ela é a Praça da Sé. Ou seja, são várias pessoas que estão lá, não se sabe direito o porquê nem o que elas querem; existem pessoas que aparentemente são identificadas como próximas, mas é só uma aparência. Se os pais tutelam os filhos mais de perto, ou seja, não os deixam muito tempo sozinhos na Internet, se aproximam e perguntam o que estão fazendo, não precisam vigiá-los depois.