09 de julho de 2026
Regional

Primeiras famílias chegaram em 74

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

A agricultura biodinâmica chegou a Botucatu em 1974. Inicialmente foram adquiridos cerca de 70 alqueires de uma terra arenosa e pouco fértil. Mas esse era o propósito do grupo que estava se instalando ali. Eles queriam refertilizar a terra e apaziguar os humanos.

A Estância Demétria foi a primeira fazenda biodinâmica no Brasil. No início, predominavam o cultivo de verduras e ervas medicinais. Com a “anexação” do vizinho Sítio Bahia, ocorrida há alguns anos, houve uma concentração maior na produção de leite e seus derivados.

Hoje, o bairro possui cerca de 150 alqueires e a paisagem ressecada deu lugar ao verde abundante. Paulo Cabrera, 48 anos, foi um dos primeiros moradores da estância. Ele chegou a Botucatu em março de 1986 depois de passar alguns anos na Inglaterra, onde conheceu a antroposofia e a agricultura biodinâmica.

Criado no 10.º andar de um prédio no Centro de Porto Alegre, Cabrera conta que nunca se imaginou trabalhando com a lavoura ou animais. Quando deixou a Europa, tinha como propósito iniciar o trabalho biodinâmico em Botucatu.

“Vejo isso aqui como um solo fértil onde a semente foi lançada. Agora, temos que cuidar para que ela cresça e dê frutos”, diz ele.

O casal Ricardo Ribeiro, 52 anos, e Ana Ventura, 40 anos, chegaram a Demétria há oito anos. Eles moravam em Araraquara e quando souberam da existência de uma escola com pedagogia Waldorf em Botucatu resolveram mudar de cidade.

Ana é professora de português e leciona há seis anos na Escola Aitiara. O marido é professor de pedagogia na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara.

Segundo eles, o que diferencia a pedagogia Waldorf das demais é a valorização da individualidade de cada aluno. Observar e desenvolver os talentos e capacidades de cada um deles é a meta da escola.

Na Aitiara as crianças convivem com a natureza e fazem da sala de aula uma extensão do próprio lar. O objetivo é estimular a criatividade. Além das matérias normais do currículo oficial, a escola dá grande ênfase às atividades artísticas e musicais.

Tai Ribeiro, com apenas 11 anos, já é capaz de fazer um par de meias de tricô com cinco agulhas. É um tipo de trabalho considerado complexo para qualquer idade. Segundo Ana, mãe de Tai, desta forma é possível desenvolver a concentração, o raciocínio e a habilidade manual do aluno.

Diferentemente do que ocorre nas escolas tradicionais, na Aitiara o ensino acontece em “épocas”. Ou seja, a cada mês uma matéria é transformada no tema principal da aula. Quando a matéria escolhida é matemática, por exemplo, as três primeiras aulas do dia serão de matemática. E isso dura o mês todo. Concluído esse período, outra matéria passa a ocupar o papel principal e assim sucessivamente.

De acordo com Ricardo, é uma forma de aperfeiçoar o aprendizado. Segundo ele, quando a aula de matemática, por exemplo, fica “perdida” no meio de outras matérias, a compreensão do conteúdo fica prejudicada. Mas se o assunto for discutido por mais tempo e por dias seguidos, a absorção da matéria seria maior.

Além disso, a escola não tem dono nem diretora. Ela é gerida por pais e professores. “Aqui ninguém é empregado de ninguém”, diz Ana. A escola tem atualmente cerca de 400 alunos. Quase a metade são bolsistas e não pagam mensalidade. Parte dos alunos que freqüentam a Escola Aitiara vem da cidade atraídos pela pedagogia de Waldorf.