08 de julho de 2026
Articulistas

A barata


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Há sentimentos que pouco podemos explicar a origem. O nojo que sentimos por algo ou alguém é um deles. O objeto que gera repugnância nos atordoa. Em muitos casos fugimos. Como barata que sou, tenho lá situações e seres que me causam ascos, que me deixam enojados. Mas até o presente jamais pisei a cabeça. Sim, no geral me defendo, e se ataco é só em legítima defesa ou quando preciso comer. Em geral o inimigo é de meu tamanho e apresenta uma ameaça real. Há um tipo de bicho, porém, que me faz mal a simples presença. Mais pelo medo que me incute do que por nojo. Um bicho que mal me nota e parte para agressão. O vale tudo. Pedaço de madeira, ferro, borracha. O propósito é detonar minha vida. A perseguição é implacável e desproporcional a pouca resistência que apresento. Uma chinelada,e, eu já era. A pior estação é o verão.

Nas demais ainda conseguimos ficar enfurnadas no bueiro, único local que este bicho chamado homem nos permite circular. Mas no verão, quando o tempo esquenta aqui em baixo e a fome aperta, temos que subir à superfície para arranjar o que nos saciar.

A recepção é das mais calorosas. As comidas envenenadas, as naftalinas, pesticidas... Tudo arquitetado. A forma mais cruel de se morrer, contudo, é quando atingidos por uma sapatada. Ali agonizando, com nosso líquido vital esvaindo pelo chão, cabeça e membros esmagados, esperamos o último suspiro. A técnica de nos matar vem se aperfeiçoando justamente porque a simples presença do nosso líquido vital causa tamanho desgosto aos humanos. Não por piedade, mas pelo nojo. Corta meu coração ver meus pares tão barbaramente assassinados.

A justiça dos homens é para os homens, quase nada sobrando para outras espécies, principalmente para os chamados peçonhentos. O impasse talvez nunca chegue a um consenso satisfatório para a parte oprimida, a saber, nós. Mas se as fêmeas humanas nos poupassem o ouvido da histérica gritaria já seria um ganho. Muitas de nós, quando encontramos uma mulher, e se saímos vivas, levamos a surdez para o resto da vida. É o meu caso.

O autor, Ronaldo Duran, é escritor e psicólogo da Febem