Nova York - Era a crônica da morte anunciada. Se os republicanos saíssem derrotados nas eleições de anteontem, a primeira vítima seria o polêmico secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, há seis anos no cargo e principal artífice da Guerra do Iraque que se mostra cada vez mais fora de controle e que foi apontada por seis em dez eleitores, em pesquisas de boca-de-urna realizadas ontem, como um dos motivos de preocupação na eleição. Ele será substituído por Robert Gates, 66 anos, ex-diretor da CIA.
Era o que pedia a deputada democrata Nancy Pelosi, futura presidente da Câmara, poucas horas antes da renúncia de Rumsfeld: “Deve haver um sinal de mudança vindo do presidente”, disse.
“Tive uma série de conversas profundas com ele e concordamos que o momento era o adequado para uma nova liderança no Pentágono”, disse Bush em entrevista. Elogiou o ex-secretário (“líder brilhante num tempo de mudanças”), mas disse que o demitido concordava com o “valor de um novo ponto de vista”.
Sob Rumsfeld, o Pentágono viu quase 3 mil soldados serem mortos numa guerra que começou a dar errado a partir da queda de Saddam Hussein, com a falta de planejamento do pós-ocupação, e que acabaria, três anos depois, na atual guerra entre grupos iraquianos, corrupção nas obras de reconstrução e escalada de violência.
Polêmico, o secretário entrou para o noticiário ao soltar frases como “stuff happens” (“Coisas acontecem”, trocadilho com “shit happens”, ditado em inglês) ao ser criticado pela condução da guerra, e: “Você vai à guerra com o Exército que tem, não com o que quer”, ao ser questionado sobre a falta de equipamentos para soldados.
Entrou em rota de colisão também com as altas patentes que supostamente comandava ao forçar uma reforma no sistema militar, que ele achava inchado e burocrático. Pela Doutrina Rumsfeld, o Exército deveria ser menor, mais ágil e bem equipado. Com isso, acabou alienando as fardas.
Na semana passada, nas dezenas de comícios a que foi, Bush reafirmava que Rumsfeld, 74 anos, continuaria no cargo em que está desde seu primeiro mandato e que ocupou na gestão de Gerald Ford (1974-1977).
Até a primeira-dama, Laura Bush, teria pedido a cabeça de Rumsfeld. Mas Bush via a continuidade do secretário como um ponto de honra, meio de não passar recibo aos críticos da guerra. Não mais.
Em seu lugar, entra Robert Gates, 66 anos, diretor da CIA de 1991 a 1993, e ex-membro do Conselho de Segurança Nacional. Gates vem de ser reitor da Texas A&M University, que tem entre seus ex-alunos ilustres o próprio Bush. Ele é do círculo íntimo da família Bush. Serviu como diretor da agência de inteligência no mandato de Bush sênior e, funcionário de carreira, esteve na CIA por 26 anos.
Gates, considerado uma voz não-ideológica que fará a ponte entre os militares e a comunidade de inteligência e entre a Casa Branca e o Congresso, também abrirá mão de outro cargo ao ser confirmado como 22.º secretário de Defesa dos EUA pelo Senado: o de presidente da Associação Nacional dos Escoteiros Mirins. Se Bush queria passar um recado aos eleitores insatisfeitos, não poderia ter sido mais direto.