07 de julho de 2026
Articulistas

Jogos do Poder


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Segundo Antonio Gramsci (1891-1937), a “crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não consegue nascer; nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”. Na História humana, em específico da civilização ocidental, a Renascença assinala tal período de indefinição entre a Idade Média e a Moderna. Esse peculiar momento histórico produz abaladas transformações nas sociedades da Europa Ocidental. Eis alguns desses característicos “sintomas mórbidos” de mudança: desenvolvimento da civilização urbana; descoberta do Novo Mundo; revoluções astronômicas de Copérnico e Kleper; redescoberta da Antiguidade greco-romana pelos humanistas; radicalização no pensamento religioso; contestação do poder e da hierarquia de Roma.

Nesse agudo cenário de instabilidade, efervescência e incertezas destacou-se, no pensamento político, o pensador florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527). É considerado o fundador da Ciência Política, e, segundo alguns estudiosos, nesse campo jamais foi superado. Influenciou gerações de reis e rainhas a partir da sua obra mais conhecida: O Príncipe (1513). Nessa obra, dedicada a Lourenço II – Casa de Médicis – o filósofo político observa com argúcia os homens públicos do seu tempo e do passado; analisa e critica suas ações. Para Maquiavel, a História é a “grande mestra”: “desconhecer a história é desconhecer a evolução e as leis que regem a sociedade onde se vive”. Sua preocupação, portanto, não é com a transmissão de valores morais, e sim com exemplos de caráter político que podem ajudar a compreender melhor as ações dos governantes. Desse modo, muitos analistas consideram O Príncipe um “manual de ação política”. Descreve o domínio da eficácia da arte de governar, ou melhor, as estratégias adotadas pelos governantes diante de determinadas circunstâncias e situações. Tais formas de ação do príncipe frente aos obstáculos da política denomina-se virtú: a capacidade/habilidade de agir do soberano. Na obra O Príncipe há um capítulo instigante intitulado Dos ministros do príncipe, que chama a atenção pela seqüência de fatos políticos, de âmbito nacional, ao tratar sobre os ministros, secretários, assessores do soberano. “Não é de pequena importância para um príncipe à escolha dos seus ministros, os quais são bons ou não segundo a prudência daquele. E a primeira conjetura que se faz, a respeito das qualidades de inteligência de um príncipe, repousa na observação dos homens que ele tem ao seu redor”. O filósofo florentino alerta que o príncipe deve estar atento às boas e más qualidades dos ministros.

Na atualidade, não só a palavra autoridade como o exercício dela está em crise absoluta. Nesse espaço, em outra ocasião, discorremos sobre o enfraquecimento do poder paterno no núcleo familiar, considerada a célula primária da sociedade. Pensar nos dias de hoje acerca da temática autoridade é revelar o quão ela é instável, cíclica e decadente. Filhos desrespeitam os pais. Alunos agridem os professores e assim por diante, envolvendo progressivamente todos os setores da sociedade e das instituições. É inquestionável a necessidade de autoridade na vida humana. Sem ela, a sociedade tende a regressar a um estado de natureza hobbesiano no qual o homem é lobo do próprio homem. De certo modo, vivemos tempos antropofágicos.

Na questão que envolve a autoridade do governante na ótica de Maquiavel, ele deve exigir de seus ministros transparência, responsabilidade e respeito. Exercer o poder de mando pressupõe impedir o rompimento da hierarquia. Destituí-la configura ameaça direta à legitimidade de quem detém o poder. Quem o possui deve agir com firmeza, segurança, impor disciplina. Autoridade é isso e um pouco mais.

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é doutorando em Ciência Política pela PUC-SP. Professor de Ciência Política no Curso de Direito; Antropologia, no Curso de Design e Mercados Regionais, no Curso de Administração, todos do Iesb-Preve e professor de Filosofia e Sociologia, no Colégio Fênix