De acordo com o pesquisador José Sidney Gonçalves, do Instituto de Economia Agrícola (IEA), vinculado à Secretaria Estadual de Agricultura, o Estado de São Paulo possui entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de hectares de pastagens degradadas. Na década de 70, o Brasil importava leite da Europa, carne de vários países, óleo de soja dos Estados Unidos, e assim por diante. “Tudo o que comia”, diz Alysson Paolinelli, ministro da Agricultura do governo Ernesto Geisel (1974-1979).
Com a modernização da agricultura, em particular no cerrado, o País virou o jogo. Agora, diz Paolinelli, o desafio é se tornar fornecedor de energia limpa.
“A fome agora é de energia limpa”, afirma o agrônomo mineiro, vencedor este ano do World Food Prize, prêmio considerado o “Nobel” da alimentação. A reportagem conversou com o ex-ministro durante homenagem a ele em Brasília, em particular sobre o papel do Estado de São Paulo na cena agrícola. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Qual o papel do Estado de São Paulo dentro dessa perspectiva estratégica que o senhor coloca para a agricultura brasileira?
Alysson Paolinelli - São Paulo foi o Estado pioneiro. Foi lá que houve a grande evolução, especialmente na área de grãos, depois de fibras, agora de energia. Isso dá ao País a condição de fazer o mesmo. Outra vantagem é que São Paulo tem bons centros de estudo, de competência. As universidades, centros de pesquisa são fundamentais nessa evolução. Sem essa evolução não seremos competitivos, não vamos ganhar no mercado internacional. A grande vantagem no Brasil é que fomos capazes de desenvolver uma tecnologia própria para as nossas condições. São Paulo foi pioneiro, mas hoje isso se expandiu para Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Goiás, Minas. São Estados que hoje têm competência, estão produzindo e são competitivos lá fora. Agora, o que não podemos perder, já que ganhamos a primeira batalha, a de ser um grande produtor de alimentos, é essa segunda batalha: o mundo que tinha fome de alimentos na década de 70, hoje tem fome de energia limpa. Naquela época não tínhamos tecnologia, hoje temos. Está faltando o quê? Decisão. O Brasil precisa imediatamente ocupar esse espaço.
JC - O governo tem estimulado o biodiesel. Não é suficiente?
Paolinelli - É fundamental que, além de estimular, ele coloque as condições para fazer isso rapidamente.
JC - Quais seriam as condições?
Paolinelli - Motivar os empresários daqui. Senão os de fora virão ocupar os espaços e nós vamos ser os empresários deles. Eles têm que mobilizar esse pessoal e criar condições mais harmônicas entre o grupo de produção e o grupo ecológico. A produção hoje no Brasil tem condição de ser ecológica, sustentável. Não precisa haver brigas. E estão amarrando o processo, tem vários empresários que estão amarrados, porque as licenças ambientais estão demorando. Isso deve ser harmonizado rápido. E é preciso mobilizar os recursos nacionais para isso.
JC - Em termos de área plantada, São Paulo ainda subaproveita eu espaço?
Paolinelli - Ainda tem muito espaço lá. São Paulo tem hoje 1,5 milhão de hectares de pastagens em fase de degradação. É preciso recuperar essas pastagens para ter a mesma pecuária e ampliar a produção de grãos, de energia, de álcool, óleo e outras coisas. É o que chamo de competência. Não se pode perder a chance de usar a tecnologia que já dispomos.
JC - E como recuperar essas áreas?
Paolinelli - Só a tecnologia da integração lavoura-pecuária já faz isso a um custo competitivo, absolutamente viável. O Brasil deixa todo mundo para trás nisso. O custo é muito menor e o resultado é muito mais favorável. Você faz numa mesma área, no mesmo ano a exploração de grãos, ou de fibra, de óleo, e ainda de pastagens, produzindo leite ou carne. Isso é uma tecnologia corriqueira no Brasil, e São Paulo já começou a usar.
JC - Em que lugares?
Paolinelli - Principalmente na região do arenito, na ponta com Paraná, Mato Grosso do Sul, tem muita gente fazendo. E agora vai começar no Estado todo. Essa integração é uma das tecnologias mais evoluídas que tivemos no Brasil.
JC - O senhor falou dos empresários estrangeiros. Eles já estão colocando o pezinho aqui?
Paolinelli - Lógico. O Brasil fica lento, não mobiliza a poupança nacional para investir, vem gente de fora. Não sou contra, mas que tenhamos competência para fazer frente a eles.