09 de julho de 2026
Cultura

Doce retorno

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

Embora os temas principais de “Volver” sejam a morte e a violência familiar, o talento do diretor espanhol Pedro Almodóvar para criar humor e leveza em situações dramáticas e esdrúxulas é o que marca seu retorno ao universo feminino e ao brilho de “suas mulheres”, Penélope Cruz e Carmen Maura. O filme estréia hoje no Brasil, inclusive nos cinemas de Bauru, curiosamente com o título não traduzido (“voltar”), tamanha a campanha positiva que o longa já teve nos festivais internacionais.

Se o diretor carrega nas cores e nos focos em primeiro plano, é somente para deixar brilhar a musa Penélope Cruz. É possível afirmar, sem medo, que a atriz espanhola nunca esteve tão bem na tela, em um papel profundo, forte e doce. Almodóvar e a atriz não trabalhavam juntos desde “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999). O reencontro mais esperado de “Volver”, no entanto, após 17 anos, é do diretor com Carmen Maura, estrela dos momentos mais brilhantes da carreira de ambos na década de 1980 – “Maus Hábitos”, “O Que Eu Fiz para Merecer Isso?”, “Matador”, “A Lei do Desejo” e, principalmente, “Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos”.

Outros retornos de Almodóvar são a comédia como tom de “Volver” e a história passada em La Mancha, região da Espanha onde o diretor cresceu. “Este é sem dúvida o meu filme mais estritamente manchegano: a linguagem, os costumes, os pátios, a sobriedade das fachadas e as ruas cobertas com paralelepípedos. Voltei também ao tema da maternidade, como a origem da vida e da ficção. E, naturalmente, voltei para minha mãe. Voltar à La Mancha é sempre voltar para o seio materno”, comenta o diretor, no material de divulgação.

A memorável cena inicial de “Volver” acompanha um pelotão de viúvas e filhas limpando os túmulos de seus entes no cemitério de La Mancha, sob o vento Leste que, dizem, perturba os vivos e os espíritos. Entre as mulheres, estão as irmãs Raimunda (Penélope Cruz) e Sole (Lola Dueñas), cujos pais morreram em um incêndio anos atrás. Antes de voltar a Madri, as irmãs e Paula (Yohana Cobo), filha de Raimunda, param para visitar Tia Paula (Chus Lampreave), que vive sozinha, está com a mente confusa e parece conversar com a mãe das sobrinhas, Irene. Na vila, os comentários dão conta que Irene (Carmen Maura) voltou da morte para cuidar da irmã.

Na cidade, Raimunda esforça-se em múltiplos trabalhos para sustentar a casa, enquanto seu marido, Paco (Antonio de la Torre), passa os dias em frente à TV, supostamente em busca de um emprego que parece nunca surgir. Um incidente dentro de casa no mesmo dia em que chega a notícia da morte de Tia Paula são os ganchos para desfilar seqüências que pareceriam chocantes ou bizarras sob a ótica de qualquer outro diretor, mas que Almodóvar transpõe com leveza, apesar de sua dramaticidade. A limpeza do sangue e o abraço das mulheres de La Mancha em Sole são os melhores exemplos desse talento.

Voltando à vida

Cuidando do restaurante de um vizinho, Raimunda decide aceitar a proposta de cozinhar para uma equipe de filmagens que trabalha na vizinhança, enquanto Sole, ao voltar de La Mancha após o enterro da tia, aprende a lidar com o fantasma de sua mãe, hospedada em um quarto de sua casa e passando-se por imigrante russa para as clientes de seu salão de cabeleireiro.

É o principal retorno do filme: o retorno das personagens à vida, com as cores e emoções que lhes faltavam, mesmo que não percebessem. A volta também reapresenta os dramas a serem encarados (a morte e a violência familiar) e completa o ciclo que o diretor cria para a família, pais e filhos, irmãs e amigas – ciclo esse que não recebe solução nem encontra fim, mas apenas a construção de um comovente roteiro de autoria do próprio Almodóvar.

“Eu nunca aceitei ou entendi a morte. E isso te coloca numa situação bastante perturbadora quando temos de enfrentar a passagem cada vez mais rápida do tempo. A coisa mais importante que retorna em ‘Volver’ é o fantasma de uma mãe que aparece para suas filhas. Na minha aldeia, essas coisas acontecem e ainda assim não acredito em aparições. Somente quando elas acontecem com outras pessoas, ou quando elas acontecem na ficção. E nesta ficção, a aparição do meu filme (e aí vem minha confissão) me deu uma dose de serenidade que eu não havia sentido por muito tempo”, analisa o diretor.

“Tenho a impressão que, através desse filme, eu vivi um período necessário de luto, um luto sem dor (como o da personagem de Augusta, a vizinha). Eu preenchi um vácuo, disse adeus a algo (a minha juventude?) para o qual não havia dito adeus e precisava fazer isso. Não existe nada de anormal. Minha mãe não apareceu para mim, embora eu tenha sentido sua presença mais perto do que nunca. ‘Volver’ é um tributo para os rituais sociais praticados pelas pessoas da minha aldeia em relação à morte e aos mortos. Os mortos nunca morrem”, completa Almodóvar, no material de divulgação.

Do olhar carinhoso aos personagens à ausência de julgamento moralista para seus atos, “Volver” é filmado com grande beleza, com fotografia de José Luis Alcaine e música de Alberto Iglesias – que já trabalharam com o diretor inúmeras vezes. O filme ainda é levemente menor do que as duas obras-primas de Almodóvar, “Tudo Sobre Minha Mãe” e “Fale Com Ela”. No entanto, uma obra menor de um dos melhores cineastas em atividade no mundo atual não está em cartaz todos os dias nos cinemas. Envolvente, brilhante, trágico e engraçado, tudo como só ele sabe criar.