10 de julho de 2026
Cultura

Experiência reuniu dedicação e resultados

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Durante seis meses do projeto “Otimidade”, foram realizados ensaios semanais, com duração aproximada de três horas cada. O objetivo maior do dramaturgo Paulo Neves não era fazer dos alunos atores profissionais, mas sim estimular a criatividade, ativar a memória, diminuir a timidez, ou, na fala do próprio Neves, transformá-los em “grandes operários da emoção”.

Para isso, eles receberam aulas de expressão corporal, técnica vocal, improvisação, canto, interpretação, história do teatro nacional e mundial; além de instruções da fonoaudióloga Perla Martins, da psicóloga Maria Lúcia Nejm de Carvalho e da professora de dança Merene Bato. Os alunos também viajaram para São Paulo para prestigiar os espetáculos “Ricardo III”, de Shakespeare com direção de Jô Soares, e “A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, com direção de Antunes Filho.

O empenho do grupo surpreendeu o próprio dramaturgo. “Todos mergulharam de forma positiva. Eles saíam do trabalho e vinham ensaiar empolgados. Pessoas de 30 anos se tornando amigos de senhoras de 60. A convivência que tivemos nesses meses foi inesquecível”, emociona-se Neves.

Tanto trabalho só poderia gerar bons resultados, como o público poderá conferir com a peça “Cenas Brasileiras + 2”, com oito números selecionados, sendo seis da dramaturgia nacional (“A Dona da História”, de João Falcão; “O Submarino”, de Miguel Falabella; “A Dama de Copas e o Rei de Cubas”, de Timochenko Wehbi; “O Caminho Para Dois”, de Flávio Marinho; “Abre a Janela e Deixa Entrar o Sol Puro da Manhã”, de Antonio Bivar; e “A Coisa Certa”, de Júlio Conte) e dois épicos estrangeiros (“Terror e Miséria do Terceiro Reich”, de Bertold Brecht, e “A Margem da Vida”, de Tennesse Willians).

Transformação

Nas primeiras aulas do curso, ele não pronunciava uma palavra. Quieto, o motorista José Carlos Félix de Abreu, 50 anos, tinha pavor de falar, razão por ter procurado o “Otimidade”. Passados seis meses de ensaios, ele ainda luta com a timidez, mas a enfrentará no palco carregando o monólogo “Terror e Miséria do Terceiro Reich”. “Eu continuo sendo uma pessoa reservada, mas mudei bastante. Foi um processo muito difícil e minha prova de fogo será a apresentação. Mas estou calmo e não pretendo parar por aqui. Quero escrever uma peça”, anseia o motorista.

Os motivos que levaram o militar federal e professor José Roberto de Oliveira, 38 anos, a procurar o curso foram outros. Depois de passar dez anos na selva amazônica, o que buscava era uma forma de terapia e de aperfeiçoamento profissional.

Com dificuldade de memorização, o militar se surpreendeu ao conseguir decorar os textos das duas cenas de que participará “Caminho para Dois” e “A Coisa Certa”. “Troquei a AR-15 pelos textos”, brinca. A idade para isso pouco importa. “Todos do grupo já atingiram um objetivo profissional e estão fazendo teatro por amor e não para ser um artista da Globo, como acontece com muitos jovens”, coloca.

Já para a professora de música aposentada Dulce Turtelli Lagreca, 63 anos, o fator idade foi um empecilho, mas apenas no começo. Logo nas primeiras aulas, o receio foi quebrado pela amizade com o restante do grupo. “Num primeiro momento a idade pesou, mas a turma se tornou muito unida e esta preocupação passou”, lembra.

Agora, ela está preparada para realizar o antigo sonho de interpretar. Dulce está no elenco de “A Margem da Vida”, considerado um dos textos mais difíceis do teatro mundial. “Acho que todas as pessoas devem ir atrás de seus sonhos e procurar realizá-los sem inibição”, diz. A frase pode ser complementada com a do diretor Paulo Neves, afinal, “a vida está aí e vale a pena ser vivida”.

Serviço

Apresentação da peça “Cenas Brasileiras +2”, nesta quinta-feira, dia 16, às 20h, no Teatro Municipal (avenida Nações Unidas, 8-9). Ingressos por R$ 10,00 e R$ 5,00 (professores da rede pública, maiores de 60 anos e estudantes com comprovante). Mais informações: (14) 3235-1072.