Antigamente, posto de gasolina se escolhia apenas pela localização, bandeira ou preço. Lembram-se destes bons tempos? Hoje temos que tomar um enorme cuidado para comprar combustível puro, não adulterado. O que aconteceu? Como sempre, em primeiro lugar a ganância de “empresários” inescrupulosos, que querem ganhar mais em cima de nós, e a qualquer custo. Segundo, pelo total descontrole de fiscalização do governo, que parece não conseguir ver as soluções que todo mundo enxerga. Mas o que nos interessa nesta coluna é conferir o que esta situação afeta nossos queridos carros.
Combustíveis (álcool, gasolina e diesel) são produzidos e especificados para gerar potência nos motores quando misturados ao ar e inflamados. Gerarão calor, pressão, energia e gases queimados. Por isso, sua composição química é muito controlada, seguindo rigorosos processos de garantia da qualidade. Desta qualidade resultará a capacidade deste combustível poluir mais ou menos a atmosfera.
Mas não é só isso, os motores, como agentes transformadores destes combustíveis em energia, também são afetados pela qualidade deles. Os combustíveis têm aditivos com capacidades lubrificantes, aceleradoras ou retardadoras de queima, não formadoras de resíduos e de limpeza das partes internas do motor, dentre outras. Com todo este compromisso assegurado, teremos um motor com boas respostas de potência e aceleração, além de baixos níveis de consumo e emissão de poluentes.
Já quando adicionamos outros componentes mais baratos ao combustível, para ganhar volume e gerar ganhos na venda, não estamos apenas prejudicando o bolso do consumidor e o meio ambiente, mas principalmente o motor.
Colocar solventes derivados de petróleo na gasolina é um verdadeiro caso de polícia. O motor perde potência de imediato, dá para perceber ao fazer a primeira curva após sair do posto. O motor engasga, não acelera, demora para dar a partida a frio. Os índices de emissões vão ao espaço, sai de tudo que é ruim e prejudicial à saúde pelo escapamento, sem controle algum.
Dentro do motor, as paredes começam a corroer, formam-se gomas, lacas e borras por toda parte onde circula o combustível, entupindo válvulas, dutos e orifícios calibrados. A corrosão afeta também esta calibração. Como a gasolina adulterada queima de forma diferente à projetada no motor, são geradas altas temperaturas dentro da câmara de combustão, propiciando um desgaste mais acelerado de todo o sistema, podendo chegar a fundir o motor.
Com o álcool não é muito diferente, sendo inclusive mais difícil de ser detectado e mais fácil de ser feito. Como o álcool é transparente, o mais comum é adicionar-se água, diluindo-o. Ele perde muita potência de queima, o motor fica fraco e com marcha irregular. Em casos extremos, o excesso de água adicionada, que não queima pelas próprias propriedades físico-químicas da água, pode causar um calço hidráulico no motor, quebrando pistões e bielas.
No diesel, a coisa está séria também. Diesel puro polui menos, dá mais potência ao motor e não gera fumaça. Mas quando é batizado (um nome tão puro para uma atividade criminosa), causa o oposto. Conheço casos de motores de caminhões estourados na estrada por excesso de temperatura e corrosão por combustível adulterado. Agora, com o advento do biodiesel, resultado de muita pesquisa e estudo e que só garante a adição de óleo vegetal ao diesel na proporção de até 5%, tem gente que acha que colocar 20% de óleo de fritura no tanque vai resolver seu problema... Dizer o que desta mentalidade? Espero que o País mude.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro.
Seu site é www.marcoscamerini.com.br.