Será que o baixista Peter Hook está brigado com o vocalista e guitarrista Bernard Sumner? Ou com o iluminador talvez, já que ele passou boa parte do show do New Order nos cantos extremos do palco, onde o canhão não o alcançava? Será que o som está ruim só nesse lugar onde nós estamos? Não importa, é o New Order tocando ali no palco.
É pena que os músicos ingleses não envelheceram tão bem quanto outros astros do rock e da música pop – e talvez nem o quiseram. Porém, se jovens já não esbanjavam energia no palco, que dirá ao passar dos 50? E por que aquele paletozinho de Sumner, ou a camiseta regata de Hook, que insiste em seguir usando seu baixo, pendurado na altura dos joelhos, como instrumento fálico – como fazia há 25 anos, quando ainda era um garotão? Pouco importa, ele continua tocando de forma assustadora, eles são o New Order e ainda revivem canções do Joy Division.
Essas foram as sensações que permearam todo o show que a banda inglesa fez no Via Funchal, na Capital paulista, anteontem, para cerca de 6 mil pessoas – entre pós-adolescentes mais novos do que “Love Will Tear Us Apart” (1980), como este jornalista, e fãs que aguardavam o retorno do grupo ao Brasil há 18 anos, com as camisetas do Joy Division preservadas das traças com naftalina.
Enquanto a fila do lado de fora da casa de espetáculos parecia não ter fim, o som começou a tocar “The Good, The Bad and the Ugly”, do mestre das trilhas de western Ennio Morricone. Sozinho no palco, Sumner anunciou o show e brincou que ia ficar sozinho mesmo: “Não preciso de uma banda”. E entraram Hook, o baterista Stephen Morris e o tecladista e guitarrista Phil Cunningham, substituindo Gillian Gilbert, para mandar “Crystal”, do mediano retorno da banda em 2000, “Get Ready”, ainda que as duas guitarras fizessem bem seu trabalho.
“Turn”, do último disco da banda, “Waiting for the Siren’s Call”, confirmou que o som estava realmente ruim – além do fato de Sumner não ser um vocalista de vozeirão -, mas abriu para “Regret” que, essa sim, colocou todo mundo para pular. Em seguida, com “Ceremony”, o grupo lembrou a razão de ter seu nome marcado na história do rock desde sua origem, com o Joy Division que implodiu após a morte do vocalista, Ian Curtis, dando origem ao New Order eletrônico e dançante.
Ainda assim, fica a impressão que essas canções com mais de 25 anos só estão no repertório do show para provocar os “Uuuuooooh” que a platéia solta quando as reconhece ou quando são anunciadas.
A favor do New Order, são poucas bandas que podem desfilar em seqüência “Your Silent Face”, “True Faith”, “Bizarre Love Triangle” – com o vocalista pagando de joelhos no refrão –, “Temptation”, “Perfect Kiss” e “Blue Monday”, a maioria com arranjos modificados e mais eletrônicos, contrariando a fase mais roqueira da banda nos últimos anos.
No bis, Sumner ofereceu “Shadowplay” ou “She’s Lost Control”, que ganhou e fechou o show juntamente com “Love Will Tear Us Apart”. Mais duas do Joy Division, gentilmente oferecidas à “melhor platéia do mundo”, que recebe os cinqüentões com braços e celulares com câmera para o alto, em busca de hits-levanta festinhas que tocam o coração de quem aprendeu que dançar canções melancólicas é possível.
Foi uma segunda-feira azul, no melhor sentido que a cor tem em português: cantar e dançar “Bizarre Love Triangle”, “True Faith”, “Love Will Tear Us Apart” com os músicos que carregam essas canções é histórico, assim como é indiscutível que o New Order é mais que uma banda, é um subgênero da música pop do século 20.
Entretanto, o som ruim, a voz falha e principalmente a postura de ídolos adorados são fatais quando o grupo, na verdade, é vítima de um tempo que já passou. A comoção de ver o New Order ao vivo deixa um gosto meio “blue”, no significado inglês do termo.