Ontem foi comemorado o Dia da Proclamação da República em todo o País, mas para a bauruense há quatro anos Maria Severina da Silva, natural de Garanhuns (PE), mesma terra natal do presidente Lula (PT), foi Dia de Cidadania Rural. Ela compareceu a um dos estandes do evento organizado por instituições municipais no Sítio Reunidas Santa Maria para providenciar o Registro de Identidade (RG) dela e de um de seus cinco filhos.
O detalhe na fila de atendimento organizado pela Polícia Civil é que sua filha, Ana Cláudia de Oliveira Silva, 11 anos, mostrou dificuldade extrema para desenhar as letras que formam seu nome.
O problema é que esse quadro no campo não é isolado. Ao contrário, a terceira edição do Dia da Cidadania Rural, promovido pela Prefeitura de Bauru em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e apoio de órgãos como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Sindicato Rural, mostrou que o analfabetismo ou mesmo a semi-alfabetização ainda resistem em Bauru entre dezenas de famílias.
A secretária Municipal de Agricultura (Sagra), Maria Eugênia Gracia, confirma que as reuniões em nove regiões da zona rural de Bauru, no ano passado, mostraram carência em alto grau para a escolaridade no campo, da faixa de 7 a 14 anos aos adultos que ainda não sabem ler e escrever.
“É uma demanda que está em todas as regiões rurais de Bauru, divididas em nove setores no levantamento do Plano Diretor em 2005. Até os sete anos, essas crianças não podem contar com transporte escolar e, a partir dessa idade, essas crianças vão para escolas da periferia, mas lá enfrentam grande desvantagem com os alunos dos bairros, porque não sabem sequer pegar no lápis, pintar ou fazer um desenho. Essa deficiência se estende e encontramos demanda elevada de crianças com 11, 12 anos, que ainda não sabem escrever o próprio nome sozinhas”, descreve a secretária.
Falta de ações
Para atender ao contingente de adultos analfabetos ou que não completaram o ensino fundamental, a Prefeitura instituiu o Centro de Educação para Jovens e Adultos (Cejas), com oito unidades novas em fase de construção neste momento.
Mas para atacar o analfabetismo rural, ainda não há ação desenvolvida no mesmo patamar. “Percebendo essa deficiência nós acionamos a área de educação e foi instituído na revisão do Plano Diretor a criação da pré-escola rural. A educação vai ter de pensar nisso”, adianta Gracia.
A situação é uma distorção da ação do Poder Público no setor ao longo do tempo no País, sobretudo a partir do êxodo rural. Com menos pessoas morando no campo, as unidades escolares deixaram a área agrícola. O problema, na visão da secretária, é a ausência do programa na etapa inicial. “Essas crianças não podem ficar sem nenhum mecanismo inicial de alfabetização até a faixa dos sete anos, senão não corrigimos isso”, avalia.
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Sem identidade, de PE para Bauru
Maria Severina da Silva deixou a terra natal em Pernambuco, Garanhus, em direção à São Paulo com toda a família quando ainda era pequena, no movimento migratório que predominou no País sobretudo com origem nas regiões Norte e Nordeste. Há quatro anos, ela e seus cinco filhos estão no acampamento Terra Nossa, esperando que seu conterrâneo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), destine a área para fins de reforma agrária.
Ontem, Maria Severina foi solicitar a retirada de seu RG, assim como inscreveu a filha no programa. “Ela não consegue escrever sozinha e ainda não tinha documento, então eu aproveitei e trouxe três filhos, ela de 11 anos, e os de 15 e 13”, conta.
Durante o preenchimento do formulário para emissão do documento de identidade, a filha Ana Cláudia mostrou que o mundo das palavras escritas ainda é algo a ser descoberto, apesar de seus 11 anos. “Se falar as letras lembrando coisas ela escreve, mas é muito devagar até hoje”, comenta a mãe.
A escrivã de polícia que a atendeu, Neuza Maria, improvisou, como se fosse professora: “Vai devagar. Escreve ‘A’ de amor, ‘N’ de navio, ‘A’ de amor de novo”.
Participante de evento anterior do Dia da Cidadania Rural, a Policial Civil confirmou que o problema está disseminado no campo no Município. “A maioria das crianças que veio aqui tem dificuldade grave de alfabetização. Precisa soletrar as palavras”, aponta.