09 de julho de 2026
Cultura

De olho na história de Bauru

Da Redação
| Tempo de leitura: 7 min

Em 1949, Luciano Dias Pires, então com 27 anos, começava sua carreira de jornalista como locutor da Bauru Rádio Clube. Dessa época, vêm suas primeiras lembranças como redator-chefe do jornal “A Gazeta Paulista”, quando publicou uma série de reportagens históricas.

Paralelamente, mantinha seu emprego na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, onde trabalhou por 37 anos até se aposentar em 1982. Nesse período, o jornalista teve acesso à trajetória da ferrovia e, conseqüentemente, a de Bauru, já que é difícil encontrar a linha onde essas histórias se dividem.

E foi assim que Luciano Dias Pires foi se entrosando com os vários capítulos da história da cidade Sem Limites, acompanhando o caminhar de seus pioneiros. Em 1974, achando que faltava algo na imprensa que retratasse a vida desses homens e mulheres, o jornalista pensou em lançar um jornal, idéia concretizada em dezembro daquele ano, com o nascimento do “Bauru Ilustrado”, publicado até hoje no Jornal da Cidade.

Em 32 anos de existência do suplemento, o jornalista inseriu em suas páginas mais de 300 reportagens sobre famílias brasileiras e estrangeiras, além de outras sobre a vida estudantil, cultural, política, esportiva, empresarial de Bauru.

Nessa trajetória, são muitas histórias, conquistas e alguns sonhos ainda não realizados, como a criação de um Memorial Histórico e Cultural. Leia mais abaixo sobre isso e outras idéias do jornalista na entrevista concedida ao JC Cultura.

Jornal da Cidade - Quais setores da história da cidade são carentes de registros?

Luciano Dias Pires - As modalidades esportivas, por exemplo. Certa vez, para atender uma consulta de São Paulo sobre nomes de esportistas ligados a conquistas de nível estadual e nacional, a própria agremiação de Bauru não possuía os subsídios necessários. Muita gente não sabe, por exemplo, que não foi Pelé e nem Toninho Guerreiro o primeiro jogador de Bauru a jogar na seleção brasileira.

JC - O que o senhor sugere para uma melhor preservação e divulgação da história de Bauru?

Pires - Bauru pode se orgulhar de possuir uma série de entidades que preservam a história. Mas, acredito que seria preciso a criação de um Memorial ou Centro Cultural-Histórico, que teria um banco de dados sobre tudo aquilo referente aos velhos tempos.

JC - Como funcionaria esse memorial?

Pires - Seria preciso um local adequado, com computadores e funcionários. Toda a história de Bauru estaria à disposição por datas e assuntos.

JC - E a política teria um espaço especial nesse empreendimento cultural-histórico?

Pires - Não restam dúvidas de que a trajetória política da terra bauruense teria um tratamento especial no memorial. Começaríamos com um completo relato sobre a tomada da sede de Fortaleza do Espírito Santo pelos vereadores eleitos em 1895. Passaríamos pelo assassinato de Azarias Leite em 1910, falaríamos a respeito de quatro jornais incendiados e destruídos (1910, 1930 e em 1932), e sobre fatos curiosos, a exemplo do prefeito que levou um tiro no pé e “deu no pé”.

JC - E os assuntos ligados à vida estudantil?

Pires - Jamais poderíamos nos esquecer de nossas primeiras escolas, dos lendários professores e também das riquíssimas festas que marcaram as eleições das rainhas dos estudantes. Todos esses assuntos já foram explorados em diferentes edições do “Bauru Ilustrado”, mas precisam ser transportadas para um banco de dados que ficaria à disposição dos interessados.

JC - No caminhar da história de Bauru, o senhor acha necessário um levantamento sobre as primeiras indústrias e lojas da cidade?

Pires - Quanto a essa pergunta, volto a afirmar que através do “Bauru Ilustrado” muito foi dito sobre as entidades mais antigas que estão em ação. Algumas resistiram ao tempo e, mesmo enfrentando a concorrência de importantes organizações, sobreviveram e ainda estão em franca atividade. Suas histórias já foram contadas no BI, mas merecem um registro especial no órgão que pretendemos criar.

JC - E os clubes, cinemas e outras atrações de entretenimento?

Pires - No passado, Bauru se serviu de bons cinemas. A partir dos anos 30, possuía o Cine Brasil, Teatro São Paulo, Cine Bauru e outros foram surgindo. Mas, de um certo tempo para cá, essas casas de espetáculos cinematográficos deixaram muito a desejar. Se hoje desfrutamos de modernos cinemas, a história dos anteriores deve ser contada. Isso também aconteceu com os clubes recreativos. Todos eles merecem um capítulo especial.

JC - Como jornalista e ferroviário com 37 anos de serviços prestados à Noroeste do Brasil, certamente o senhor tem muito a contar sobre a influência das ferrovias no progresso de Bauru.

Pires - Não restam dúvidas que dos meus 79 anos de idade, 37 foram vividos intensamente nos escritórios da Noroeste do Brasil. Ao lado da Cia. Paulista e da Sorocabana, essas empresas colaboraram para que o crescimento de nossa cidade fosse uma constante. No Memorial ou Centro Histórico-Cultural haveria, portanto, um espaço especial.

JC - Quanto à imprensa, como seria contada a sua história?

Pires - A exemplo de tantas outras cidades, em certa época o progresso de Bauru exigia também o surgimento de um jornal e isso aconteceu em 1905 com a publicação de “O Progresso de Bauru”, que teve duração efêmera, mas que contou, posteriormente, com “O Bauru”, que circulou por mais de 20 anos. Em 1934 surgia a Bauru Rádio Clube, uma iniciativa do saudoso João Simonetti, que nos trouxe nos anos 30 o cinema falado e, em fins dos anos 50, colocou Bauru como pioneira da televisão no Interior do Brasil. Tudo sobre a nossa imprensa já está escrito, mas deve igualmente ocupar um lugar de destaque no memorial que, se for aceita a sua criação, será mais um influente passo para que os acontecimentos do passado não se percam.

JC - Da década de 50 para cá, há registros?

Pires - Em meu arquivo, tenho informações sobre 90% da história de Bauru, desde meados do século 18 até fins dos anos 50 do século passado. Dessa década para cá, há uma necessidade de um levantamento para que não surja um “buraco negro” em nossa história.

JC - E como seria isso?

Pires - Teria que ser feita uma pesquisa junto às entidades que possuem coleções dos antigos jornais, para ter uma seqüência exata desses jornais quanto ao dia, mês e ano. Universitários de história e jornalismo poderiam fazer isso.

JC - Você já tentou alguma parceria para dar continuidade a esse trabalho do memorial?

Pires - No começo deste ano, preparei um projeto que enviei a 15 empresas de nossa cidade, tentando uma parceria para proteger esses verdadeiros bens históricos que consegui colecionar desde 1958. Acredito que não tenha explicado muito bem sobre a minha intenção quanto à parceria, visto que até hoje, decorrido quase um ano, não recebi uma resposta sequer, nenhum telefonema...

JC - Onde o senhor guarda todos esses documentos que possui?

Pires - Infelizmente está guardado, sem a proteção necessária, em um cômodo de uma chácara, a espera de que surja um fio de esperança e possamos dar continuidade ao trabalho de divulgar o bonito passado da nossa Bauru.

JC - O senhor já enfrentou problemas no caminhar desse seu trabalho com a história de Bauru?

Pires - Nem tudo foi um “mar de rosas” nesta minha trajetória em difundir os acontecimentos dos velhos tempos. Em notícias e fotografias publicadas, cheguei a ser alvo, diretamente ou não, de reclamações de alguns quanto à divulgação de diferentes fatos do passado que acabaram por fornecer a idade atual de alguns personagens.

JC - Se o senhor tivesse que começar tudo outra vez, acredita que o entusiasmo seria o mesmo?

Pires - Quando lancei o “Bauru Ilustrado” tinha apenas 47 anos de idade. Ainda estava em franca atividade profissional na Noroeste do Brasil e era redator regional do “Diário de São Paulo”. Olhando para traz, vejo que a minha trajetória foi de grande influência em minha vida profissional e familiar. Se me fosse dado o direito de voltar no tempo, repetiria o que fiz até agora com o maior prazer e empolgação.

JC - Sua memória, um autêntico computador, ainda guarda importantes informações históricas? A sua idade atual não está sendo um entrave?

Pires - Por mais incrível que pareça, guardo em minha mente centenas e centenas de informações sobre nomes, datas de diferentes acontecimentos que movimentaram Bauru desde o início do século passado. Tudo isso já foi cantado em prosa e verso nas páginas do meu “quarto filho” que é o BI, mas ainda continua vivo em minha memória, apesar dos quase 80 anos de idade.

JC - Você já pensou no fim do “Bauru Ilustrado”?

Pires - Penso, e muito! Sei que um dia, talvez por motivo de saúde, ou outros impedimentos, seja obrigado a colocar um ponto final neste meu trabalho. O estilo do BI dificilmente poderá ser seguido, apesar da competência dos jornalistas que trabalham em nossa imprensa. Pois eu vivi intensamente a Bauru dos anos 30 até hoje.