10 de julho de 2026
Articulistas

A insustentável leveza do voto


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O escritor tcheco Milan Kundera, naturalizado francês, escreveu um romance (1984) que rapidamente ganhou as telas (1988) dos cinemas pelo sucesso alcançado nas livrarias. A Insustentável Leveza do Ser, como obra literária vendeu milhões de livros, como filme lotou cinemas e recebeu duas indicações ao Oscar. Kundera aborda os problemas do relacionamento humano de um grupo de pessoas que vivia em Praga, capital da antiga Tchecoslováquia, durante a invasão soviética em 1968, episódio conhecido como a Primavera de Praga. A química que envolve as relações humanas, no caso do romance de Kundera mais voltada para o sexo, está presente no nosso cotidiano nas mais diferentes áreas da vida inclusive na hora da escolha do candidato que se quer votar. Não poderia ser diferente, pois se escolhe por simpatia, ou por quem têm a melhor proposta, ou por quem fez isto ou aquilo, ou mesmo, por quem não fez nada mas representa uma esperança. Existem justificativas para decidirmos o voto que nem os melhores sociólogos, inclusive os que prevêem fatos acontecidos, conseguem explicar corretamente. Não resisto ao plágio e peço licença a Pascal, francês, físico e filósofo que viveu no século XVII, autor de frases que atravessaram séculos: o voto (coração) tem razões que a própria razão desconhece.

Nesta eleição presidencial o candidato Geraldo Alckmin vivenciou um fato curioso. Obteve mais votos no primeiro turno, num quadro de oito candidaturas, do que no segundo, no mano-a-mano com Lula. Qual a razão da migração de votos do tucano para o petista? A diferença que era de 7% das intenções de voto passou para 22%. Alckmin que tinha 43% do eleitorado acabou com 39%. Em Bauru, reduto tucano com firma eleitoral reconhecida, Alckmin livrou no primeiro turno uma diferença de quase 50 mil votos. No segundo a diferença caiu para 17 mil votos com o tucano tendo 4 mil votos menos. Os marqueteiros se arvoram em explicar... Quase sempre apenas o que lhes interessa. Os sociólogos, analistas políticos e curiosos de plantão também explicam... Quase sempre através de teorias que pouco convencem o por que da mudança de rumo daquela manada de votos. Porém, “como o tempo é o senhor da razão”, passadas algumas semanas, surge na bateia eleitoral opiniões convergindo para a falta de ideologia nas propostas dos candidatos, principalmente na de Alckmin. O fato de afirmar que “o Brasil precisa um choque de gestão”, ou “vamos investir em mais saúde, mais educação”, ou, ainda, “temos que ter mais ética na política”, pouco sensibilizou o eleitorado a favor do tucano. A ideologia intuitiva, produto do faro popular, propiciou a Lula o título de “defensor dos pobres” e o sustentou no 1º turno. No momento seguinte, segundo turno, seu posicionamento contra as privatizações permitiu que uma parte expressiva da classe média, sofrida por anos de achatamento salarial e outras coisas mais, assoprasse o pó da ideologia guardada no baú desde a queda do muro de Berlim e desse o troco ao neoliberalismo tucano da era FHC. Uma pitada de ideologia ajudou a furar o pneu do táxi alckmista, que poderia chegar a melhor resultado se seu principal passageiro assumisse o papel que lhe cabia no palco eleitoral: representante da imensa população conservadora que existe neste Brasil. Embora pais da privatização, PSDB e Alckmin relutaram em assumir o espaço conservador que lhes era reservado. O Alckmin, quando o tema “privatização” politizou o debate, fugiu do mesmo como o diabo foge da cruz. Com isso perdeu três vezes: primeiro eleitoralmente, depois perdeu a liderança de uma corrente expressiva da opinião pública e, por último, espaço dentro do partido para Serra, Aécio e FHC. A direita dissocia, como estratégia de luta, a política da ideologia, mas desde o tempo que o homem disputava espaço nas cavernas, política e ideologia são faces de uma mesma pedra lascada. A química que influencia a escolha na hora de votar tem uma substância chamada ideologia que, na maioria das vezes, é o fator de sustentabilidade do peso do voto. A ideologia explica o voto consciente. Agora, o voto leve que pula daqui pra lá ao sabor de propinas, favores, etc, esse voto é influenciado pela leveza insustentável de eleitores de um país que não é sério.

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, foi deputado federal no período 1978/1992, foi secretário da Agricultura no período 1987/1988 e foi prefeito de Bauru no período 1993/1996