08 de julho de 2026
Turismo

Eu Estive lá!: Chapada Diamantina

Wagner Gomide, Waldete Machado, Sílvio Serrano
| Tempo de leitura: 5 min

“Para conhecer essa bela região, antes de tudo é preciso preparo físico, aliás, essencial. São cinco dias exaustivos: um trekking pesado, só aconselhável realmente para quem estiver em forma. Acompanhados do guia Edinho, levamos conosco somente o essencial – nossas mochilas seguiram no lombo de uma mula.

A trilha inicia-se no bairro de bomba, uma das localidades próximas ao vale do Capão.

Uma subida íngreme já adiantava o que estava por vir.

A bela floresta que recobria toda a encosta e nos dava uma sombra providencial cede lugar para os campos de altitude.

Entramos nos Gerais do Vieira, um planalto recoberto por relva baixa, onde a caminhada seguia mais tranqüila. A paisagem é maravilhosa, o Morro do Ancorado, Castelo, Morro Branco, Serra do Sobradinho, flores por todos os cantos, uma imensidão de terra que se descortina até onde a vista alcança. Nesse dia teríamos que vencer 27 km. Quando entramos nos Gerais do Rio Preto, no início da tarde, tivemos a primeira visão do Vale do Pati.

Do topo da montanha, um grande vale cercado por montanhas, recoberto de vegetação exuberante... É de impressionar.

- É por aquela trilha que vamos seguir.... Era desanimador, pois a subida era enorme. Mas para isso precisaríamos descer a encosta. Depois de uma pausa admirando toda aquela beleza, seguimos em frente, ou melhor, para baixo. A trilha íngreme e estreita exigiu o máximo de cuidado. Só respiramos tranqüilos, quando chegamos na base da montanha.

Dali seguimos por uma trilha tosca, resquício do que foi até o início dos anos 80 a Ruínha, onde aconteciam as festas da comunidade que habitava o vale. Hoje, a vila se restringe a algumas poucas famílias, que hoje recebem os mochileiros que se aventuram por essas paragens.

Ao final da tarde chegamos à casa do senhor Wilson, um lugar simples, mas acolhedor, onde tomamos banho gelado (o vale não tem energia elétrica) e comemos uma maravilhosa comida caseira feita em fogão a lenha.

O dia seguinte prometia mais aventuras. Estômago cheio, pusemos o pé na estrada, com a parte da manhã dedicada a visitas a duas belas cachoeiras do vale. Seguimos por uma mata primária repleta de vida – micos, arapongas e outros bichos.

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Convite ao banho

Encontramos o leito do rio de pedras com água limpíssima convidando ao banho e seguimos por ele até chegarmos à cachoeira do Rodão e à cachoeira do Funil, um lugar fantástico, que valeu todo o esforço. A água despenca de uns 50 metros até chegar numa bela piscina. A floresta emoldurando o cenário completa o quadro belíssimo.

Desfrutamos pela manhã desse lugar incrível, mas precisávamos seguir em frente, com muito chão a percorrer.

Pusemos o pé na estrada seguindo a trilha que cortava o vale. O visual amenizava todo o cansaço. De qualquer ângulo que se olhava a vista era linda.

No início da tarde chegamos à casa de dona Léia (nossas mochilas foram trazidas por Gilmar), onde provamos o godó, um ensopado feito a base de banana verde muito saboroso, uma comida tradicional da região.

O guia Edinho nos aconselhou a descansar antes da subida até a caverna do Morro do Castelo, onde passaríamos a noite. O trajeto foi realmente uma pauleira. Duas horas para subir seus 1.480 metros. Mas a visão é magnífica. A caverna de quartzito é enorme e atravessa todo o morro do castelo. Seguimos Edinho por seu interior.

Se a vista da entrada da caverna já era linda, a saída é ainda mais deslumbrante. Dali podíamos avistar o Vale do Calistro, que faz parte também do Pati. Realmente um dos mais belos cenários do Brasil.

Depois de fotografar toda aquela beleza, retornamos à boca da caverna e montamos acampamento A noite improvisada com sacos de dormir foi péssima, mas valeu a experiência.

Descemos, retornamos à casa de dona Leia e depois do almoço iniciamos novamente nosso trekking com destino à casa de senhor Mansur cortando riachos, subindo e descendo.

Lugar lindo emoldurado por uma imensa montanha rochosa banhada pela luz do fim de tarde, puro deleite.

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Canyon cinematográfico

No quarto dia seguimos nosso caminho em direção ao Vale do Cachoeirão. Se o Vale do Pati é lindo, o canyon do cachoeirão é o ponto alto do trekking.

A floresta fechada é cortada por um rio com enormes blocos de pedra, dezenas de cachoeiras, tudo coberto com musgos, um lugar incrível. Caminhar nesse lugar só no tempo seco. Com chuva fica extremamente perigoso. O percurso é todo pelas pedras e requer muito cuidado, pois o lugar é muito isolado. Mas ao chegar no fim do canyon, somos brindados com um cenário de cinema.

Em um paredão com mais de 200m de altura, coberto de vegetação, despenca a mais linda cachoeira do vale, abastecendo uma piscina natural refrescante. Mas outra surpresa viria: lá em cima, escondido pela vegetação fechada, um outro vale, e dentro dele o poço do cachoeirão.

A visão é mágica... Um lago de águas cor de coca-cola rodeado pelos paredões e uma outra cachoeira, essa com menos água, apenas respinga no lago, como se fosse uma chuva permanente.

No início da tarde retornamos pelo mesmo caminho, chegando na casa do senhor Bezo, nossa última parada no vale, no final da tarde.

Depois de um excelente jantar, fomos dormir cedo, pois no último dia teríamos que acordar às 4h. Saímos para a trilha com a ajuda de lanternas, deixando o vale subindo a rampa do Pati.

Depois de trilhas pesadas, essa foi bem mais leve, mesmo assim chegamos ao topo da encosta molhados de suor, apesar da névoa fria que ainda pairava.

Lá de cima a última visão daquele lugar mágico. O Pati realmente é especial. Pelas suas belezas, pelos seus habitantes, pela sua história. E merece continuar assim, oferecendo a quem se dispõe a conhecê-lo momentos inesquecíveis.

Chegamos a Andaraí por volta das 10h. Depois de cinco dias isolados, ver um centro urbano era engraçado, muito barulho, carros, gente demais... Como dizia nosso guia –“não vejo a hora de voltar pro meu Pati”, assim mesmo... dele. É assim que se refere ao vale. Isso é muito bom, porque sabemos que enquanto tiverem pessoas como Edinho e muitos outros, apaixonados por esse lugar, ele vai ser preservado em toda a sua essência.