10 de julho de 2026
Nacional

Ex-petistas negam pagamento por dossiê e acusam Serra

Por Ranier Bragon, Adriano Ceolin e Silvio Navarro | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - Em uma ação considerada “combinada” por integrantes da CPI dos Sanguessugas, mais dois ex-petistas envolvidos na trama do dossiê antitucano disseram desconhecer que a aquisição da papelada envolveria o pagamento de R$ 1,7 milhão.

Expedito Veloso e Osvaldo Bargas - que integravam a campanha de Lula - também seguiram a linha adotada anteontem no depoimento de Jorge Lorenzetti de levantar suspeitas de que a máfia dos sanguessugas quitou dívidas da campanha presidencial de José Serra (PSDB), ontem governador eleito de São Paulo. Ambos disseram que participaram da negociação com o objetivo de provar que o esquema dos sanguessugas teve início no governo FHC, não no de Lula.

“O importante é que os dois enfatizam que participaram da operação para defender a imagem do governo Lula, o que desmonta a tendência da Polícia Federal (PF) de concluir que o objetivo seria apenas beneficiar a candidatura de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo”, avaliou o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ).

Expedito Veloso, ex-diretor do Banco do Brasil, confirmou ter tido “participação intensiva” na negociação, sem tratar de valores, apesar de ter afirmado que, em todas as reuniões sobre do assunto, a família Vedoin “falava de dinheiro”.

Ele reafirmou que era sua “obrigação como cidadão” mostrar a origem do esquema e afirmou ter anotado dados de pagamentos no total de R$ 1,5 milhão que teriam sido feitos pela família Vedoin a pessoas e empresas indicadas pelo empresário Abel Pereira, supostamente ligado aos tucanos. Os pagamentos teriam como objetivo quitar dívidas da campanha presidencial de Serra.

Depósitos

“Os Vedoin mostraram que suas empresas haviam pago restos de campanha do Serra”, disse Expedito. Ele citou transferências bancárias de empresas dos Vedoin a duas empresas de Minas, a Datamicro Informática, de Governador Valadares, e a Império Representações Turísticas, de Ipatinga, que teria emitido passagens aéreas para a campanha tucana.

Os depósitos teriam ocorrido em dezembro de 2002 e janeiro e fevereiro de 2003. Questionado por que não falou das suspeitas contra Serra à Polícia Federal, ele não respondeu. Pela tarde, falou Osvaldo Bargas, que disse que entrou na operação para desmontar a tese que ouvia quando ligava a TV, a de que “os sanguessugas surgiram no governo Lula”.

Bargas foi o único dos que depuseram até agora a dizer que, em determinado momento, se sentiu “utilizado” e “traído”. Revista Expedito e Bargas levantaram na CPI novas suspeitas em relação à entrevista em que a família Vedoin insinua o envolvimento de José Serra na fraude dos sanguessugas. Bargas disse que a revista “IstoÉ” foi escolhida porque o PT estava “em guerra com a imprensa e não poderia escolher qualquer jornal” para repassar a história dos Vedoin.

Segundo ele, Lorenzetti vetou a “Veja”. Bargas afirmou à CPI que sua participação no episódio se restringiu à acompanhar a entrevista dada pelos Vedoin à “IstoÉ” como forma de assegurar que a reportagem “teria o tom de que os Vedoin estavam colaborando com a Justiça”. Questionado por Gabeira sobre qual técnica desenvolvera para direcionar a edição de uma reportagem, respondeu: “Li ela antes de ser publicada. O jornalista trabalhou à noite e aí deixou”. Ressaltou que só teve ciência do texto, que não teria poder de forçar alterações.

Na sua fala, Expedito, que também acompanhou a entrevista, em Cuiabá, disse que no começo das negociações entre petistas e os Vedoin, os chefes da máfia dos sanguessugas haviam deixado claro que exigiriam pagamento em dinheiro pela entrevista que dariam.

“Na primeira visita a Cuiabá, me foi dito pelo Darci e pelo Luiz Vedoin que eles queriam R$ 20 milhões em troca de entregar os documentos à Justiça e de dar a entrevista a um meio de comunicação de nossa escolha.” Ele disse que Lorenzetti vetou pagamento em dinheiro.

‘Aloprado’

O governador eleito de São Paulo reagiu ontem às acusações de Expedito Veloso, ex-diretor de risco do Banco do Brasil, sobre o pagamento da empresa Planam de restos da sua campanha eleitoral em 2002. A Planam é a empresa da família Vedoin, acusada de chefiar o esquema da máfia dos sanguessugas. Serra disse que Expedito é um “aloprado delinqüente que foi flagrado em um ato criminoso” - por isso agora quer acusar o PSDB de envolvimento com a Planam, empresa dos empresários Luiz Antônio e Darci Vedoin.

“A maior contribuição que eles podem dar ao Brasil neste momento é esclarecer a origem do dinheiro do dossiê. É óbvio que isso é uma mentira”, enfatizou. Serra evitou comentar o conteúdo da denúncia feita por Expedito. O governador disse, apenas, que o interlocutor do ex-diretor do Banco do Brasil deve ser a Polícia Federal.

O vice-governador eleito de São Paulo, Alberto Goldman (PSDB), também reagiu às acusações e disse que Expedito é um “marginal que faz parte de um bando envolvido numa operação criminosa”.

Já o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), sub-relator da CPI, também acusou Expedito de tentar difamar a imagem do PSDB ao vincular Serra aos Vedoin. “Ele está sendo criminoso, mentiroso, não petista. Eu não ligo a figura do PT à inverdade, mas à mentira. O Expedito está desqualificando o próprio partido”, reagiu Sampaio.